Causos do Dom: Dom Helder transforma o Palácio São José de Manguinhos em um Centro de Pastoral Libertadora

Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon

Dom Helder não queria que o Palácio Episcopal São José de Manguinhos fosse uma fortaleza para proteger o Arcebispo mas queria que estivesse aberto, noite e dia, para acolher a todas as pessoas que procurassem o Pastor. Os funcionários do Palácio São José de Manguinhos, a contragosto, deixaram, alguns meses, os portões abertos. No dia 27 de julho de 1965, resolveram fechá-los e, sem querer, acabaram por deixar o próprio Arcebispo fora:

“Ontem, houve um episódio pitoresco… O portão de Manguinhos ficou aberto, dia e noite, durante meses. Os Empregados, por iniciativa própria, voltaram a fechá-lo, alegando que o quintal e os parapeitos se estavam enchendo de maloqueiros. Mas nem tiveram ânimo de falar-me… Mudaram a chave e ontem, pela primeira vez, o portão voltou a ser fechado. Conclusão: fiquei do lado de fora. A turma acordou aflita. Veio abrir o portão. Quando houve alusão a maloqueiros, lembrei que os Padroeiros deles é São José e Nossa Senhora que se abrigaram, de noite, onde puderam para que nascesse o Salvador do Mundo… O portão dormiu aberto. Mas já sei que vencerá a prudência. Pesarão as estruturas. E o portão se fechará… Não é fácil ser Papa! Não é fácil nem ser Bispo! Mas tudo vira Oferenda, quando se é um com o Irmão”.

Dom Helder, no entanto, em suas Meditações ia mais longe: pensava na possibilidade de, após o Concílio, abandonar a moradia do Palácio de Manguinhos e ir morar junto aos pobres:

“Penso, sempre mais, em voltar ao Recife; em continuar fidelíssimo à decisão de ser de todos; em continuar, com a graça divina, sempre mais preso à humildade e à caridade. Mas, em arrancar-me de Manguinhos: não ter casa minha; ir à Casa de todos os que têm Casa, mas, a ter um canto, preferi-lo entre os que não chegam a ter Casa… Os Pobres vêm ao Palácio. Mas sentem, no Bispo, um pouco, o Pai, mas sobretudo o Prestígio, a Força, a Influência, o Homem que resolve, que tem recursos, que manda nos Grandes… Não veem um igual, um irmão. […] Demagogia ou tentativa de imitar a Quem podendo escolher o lugar do próprio nascimento, escolheu uma estrebaria? Demagogia ou tentativa de imitar Aquele que não tinha uma pedra onde repousar a cabeça?”

O Dom habitou no Palácio São José de Manguinhos até 12 de março de 1968. Depois, foi morar numa sacristia da Igreja das Fronteiras, onde permaneceu até o seu falecimento, em agosto de 1999.

Enquanto Helder foi o Arcebispo Arquidiocesano, o Palácio de Manguinhos transformou-se em um centro de trabalho em prol da evangelização libertadora. Sociólogos, médicos, economistas, teólogos, estudantes, líderes comunitários lá realizavam reuniões para criar ações em benefício de uma sociedade mais humana: “O Palácio Episcopal – nome do qual me envergonho – é casa do povo. Todos podem entrar”.

Pe. Ivanir Antonio Rampon

Teólogo

Algumas fontes

Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomos I, II, III. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.

Câmara, Hélder. Chi sono io? A cura di Benedicto Tapia de Renedo, presentazione di Ettore Mesina. Assisi: Cittadella Editrice, 1979.

de Broucker, José. Helder Camara. La violenza di un pacifico. Roma: Edizioni Saggi ed esperienze, Tipografia Città Nuova, 1970.

De Rosb, Betap. Hélder Câmara, signo de contradicção. Salamanca: Ediciones Sigueme. 1974.

Rampon, Ivanir Antonio. Francisco e Helder – Sintonia Espiritual. São Paulo: Paulinas, 2016.

Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, 2013.

Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, 2014.

Weigner, Gladys e Moosbrugger, Bernhard. Helder Câmara: la voce del mondo senza voce, Milano: Centro Missionario PIME, 1973.


Descubra mais sobre Dom Helder Camara Oficial

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Dom Helder Camara Oficial

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo