Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon
Um dos assuntos que fez parte da pauta de Dom Helder, nos primeiros anos de seu pastoreio em Recife, foi a reorganização do Palácio São José de Manguinhos, o qual não deveria ter caráter de trono, de fortaleza, e sim, estar de portas abertas, noite e dia. Ele se sentia inspirado pelo Papa: “Paulo VI me declarou que só acredita que o Papa se possa livrar de excessos não evangélicos de sua apresentação externa se os Bispos do mundo inteiro derem o primeiro passo…”.
O Arcebispo livrou-se da Aero Willys, abriu o Palácio aos pobres, mas também queria tirar o “nome” e o “ar” de Palácio do “querido São José de Manguinhos”: queria desfazer-se dos dois tronos, das cadeiras nobres, dos tapetes e aproveitar melhor as salas vazias: “Dom José lembra que eu preciso das salas para receber Comissões… Dessa maneira, o Santo Padre jamais se livrará do Vaticano!”.
Fesquet escreveu em seu Diario del Concilio, em novembro de 1964, que Dom Helder Camara, Arcebispo de Recife, é uma das figuras mais comoventes do Concílio. Todos sabem em Roma que ele é o Bispo dos pobres por excelência. Ele colocou seu Palácio Episcopal à disposição dos pobres e estes se sentem em casa. O Papa tem um afeto particular por Dom Helder: mais, Paulo VI lhe disse, pessoalmente, ser influenciado por ele. É também por isso que os discursos desse Bispo devem ser escutados com a máxima atenção.
Dom Helder, nas Vigílias, meditava com intensa profundidade alguns fatos que aconteciam no Palácio e que provocavam à sua audácia evangélica. Às vésperas de 1965, por exemplo, o Dom recebeu um presente especial.
De repente, adentrou no Palácio São José de Manguinhos um rapaz. Ele estava esperando o ônibus “em frente à nossa casa, quando u’a mulher aflita lhe pediu a fineza de segurar um instante um pequeno plástico com roupinhas de crianças. A seguir, pediu que segurasse a própria criança” e disse ao moço: ‘“Pelo amor de Deus entregue a Dom Helder. Diga que sou u’a mãe infeliz que não posso criar meu filho’. E saiu correndo, sem coragem de olhar a criança (escondendo os olhos com o braço)”. Duas Religiosas que estavam no Palácio ficaram em pânico: telefonam para as maternidades pedindo um lugar para a criança. Dom Helder registrou:
“Não havia lugar na hospedaria. Propus que procurássemos uma estrebaria, um boi e um burro… A Maternidade do Derby – como se tratava de servir ao Sr. Arcebispo – consentiu em guardar o Sem-Nome, o Indesejado, por uma noite. […] Enquanto isto, tentei cantar as Irmãs. Provei que não faltaria ajuda ao Garotinho (ao Zé, Antônio, Severino… ao Cristo que nos chegava) […]. Choveram presentes. O pânico das irmãs só fez aumentar. Quando já não se aguentavam de pavor, veio um casal sem filhos (de absoluta confiança) e levou o Emanuel…”
Durante a Vigília, Dom Helder refletiu: “Que quis dizer-me o Senhor?… Será que entendi a mensagem? Será que adivinhei o nome da Criança? Fosse batizá-la, com a liberdade bíblica de criar nomes, eu a chamaria Nordeste ou Terceiro Mundo”.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Teólogo
Algumas fontes
Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomos I, II, III. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.
de Broucker, José. Helder Camara. La violenza di un pacifico. Roma: Edizioni Saggi ed esperienze, Tipografia Città Nuova, 1970.
Fesquet, Henri. Diario del Concilio. Milano: Mursia, 1967.
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, 2013.
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, 2013.


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