Em julho de 1955, o Rio de Janeiro sediou o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional. Dom Helder Camara, responsável pela comissão organizadora, recebeu do cardeal Gerlier, de Lyon, uma pergunta que marcaria sua trajetória: “Por que não põe seu talento de organizador a serviço dos pobres?” Dom Helder reconheceu naquele momento um chamado e prometeu dedicar-se a eles.
A decisão significou mais do que prestar assistência: era preciso enfrentar as causas que produziam a pobreza. No Rio de Janeiro, Dom Helder organizou a Cruzada de São Sebastião, com leigos da Ação Católica e apoio do Governo Federal. Na favela da Praia do Pinto, por exemplo, famílias viviam em condições precárias. Em 1957, muitas foram transferidas para prédios construídos no próprio local, permanecendo próximas de seus empregos. Com a irmã Enny Guarnieri, Dom Helder promoveu a conscientização dos moradores, que elaboraram códigos de convivência e organização comunitária.
A busca por respostas duradouras também inspirou o Banco da Providência, criado em outubro de 1959. A instituição reunia donativos de diferentes setores da sociedade e convocava a comunidade a participar. Seu propósito não era perpetuar o assistencialismo, mas aproximar pessoas, fortalecer a responsabilidade social e contribuir para uma sociedade mais justa e solidária.
Transferido, em 1964, para a Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom Helder encontrou pobreza nos Mocambos e nos Alagados e abriu o Palácio São José de Manguinhos a quem buscava ajuda. Na Ilha das Mangas, em vez de promover despejos, dialogou com o padre José Mousinho para doar títulos de propriedade, melhores condições de vida, cultivo adequado à região e evangelização. Em junho de 1965, após uma grande inundação no Recife, articulou entidades sociais, políticas e religiosas na Operação Esperança, que ajudou a reconstruir casas e a encontrar moradia para desabrigados.
Essa trajetória encontra profunda sintonia com a Exortação Apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, publicada em 4 de outubro de 2025. O documento recorda que o pobre não é apenas destinatário de compaixão ou ajuda: nele, os cristãos encontram o próprio Cristo. Nesta mesma perspectiva do Papa, Dom Helder reconhecia os pobres como irmãos e protagonistas, capazes de participar da construção de uma nova sociedade. Seu trabalho buscava criar oportunidades, fortalecer comunidades e enfrentar estruturas de exclusão.
Os pobres também nos oferecem experiência, resistência, esperança sabedoria… e a presença de Cristo. Como ensina a Dilexi te, a Igreja também precisa deixar-se evangelizar por eles.
O Dom dos Pobres fez da opção pelos empobrecidos o eixo da sua missão – que não é só dele, mas de muitas pessoas que buscam a paz enquanto fruto da justiça, do amor e do perdão. O testemunho de Dom Helder recorda que servir exige conversão, escuta, troca de dons e ação coletiva para transformar as causas da pobreza. Ninguém muda a realidade sozinho…
O amor aos pobres, portanto, não se separa do amor a Jesus nem do coração do Evangelho. “Eu te amei”, sentido do título Dilexi te, aponta para a iniciativa amorosa de Deus e para a dignidade de cada pessoa.
Elisabete Gambatto
Pe. Dalcinei Sacheti
E demais integrantes do Grupo de Espiritualidade e Estudo
Re-Vivendo Dom Helder Camara
Referências bibliográficas
GAMBATTO, Elisabete. “As afinidades espirituais entre Dom Helder e São Francisco de Assis”. Trabalho monográfico de conclusão de Bacharelado em Teologia, na Itepa Faculdades. Passo Fundo: agosto de 2022.
LEÃO XIV. Exortação Apostólica Dilexi te: sobre o amor para com os pobres. Vaticano, 4 out. 2025. https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/apost_exhortations/documents/20251004-dilexi-te.html. Acesso em: 8 out. 2026.
PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Câmara, entre o poder e a profecia. São Paulo: Ática, 1997.
RAMPON, Ivanir Antonio. Dom Helder e Ir. Enny Guarnieri: o Código de Honra dos Cavaleiros de São Sebastião. Causos do Dom. Recife: Portal do Instituto Dom Helder Camara, 17.7.2025. https://domheldercamara.org.br/2025/07/17/causos-do-dom-dom-helder-e-ir-enny-guarnieri-o-codigo-de-honra-dos-cavaleiros-de-sao-sebastiao/
RAMPON, Ivanir Antonio. Dom Helder visita a Ilha das Mangas: “não vamos despejar mas transformar os moradores em proprietários”. Causos do Dom. Recife: Portal do Instituto Dom Helder Camara, 25.6.2026. https://domheldercamara.org.br/2026/06/25/causos-do-dom-dom-helder-visita-a-ilha-das-mangas-nao-vamos-despejar-mas-transformar-os-moradores-em-proprietarios/
RAMPON, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, 2013.
SACHETI, Dalcinei. “A vivência da fé e do amor, por Dom Helder Camara, revelada nas Circulares Justiça e Paz”. Texto apresentado para a obtenção do título de Pós-Graduado em Espiritualidade, na Itepa Faculdades. Passo Fundo: julho 2026.


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