Causos do Dom: Inauguração do Seminário: Dom Helder afirma que a Igreja deseja padres comprometidos com o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos

Colaboração de Pe. Ivanir Antonio Rampon

Depois de Dom Helder ter experimentando vários constrangimentos para levar adiante a construção do Seminário Regional do Nordeste, chegou, enfim, o dia da inauguração do Seminário. Uma multidão veio de todos os cantos para o evento. Dom Helder fez grandes esforços para agradar o representante do Papa, o Presidente da Comissão Pontifícia para América Latina, Monsenhor Antonio Samorè, com o qual tivera atritos.

Na Circular Interconciliar nº 188, Dom Helder anotou: “A Santa Missa foi linda, linda, linda… […] As cerimônias, as orações, o canto, a atitude dos seminaristas, tudo do melhor estilo e de modo a cativar o Embaixador especial do Santo Padre…”. O Reitor do Seminário, Pe. Marcelo Carvalheira, fez uma grande e bela oração. Enquanto isso, “eu conversava com José, pensando no meu discurso: como pronunciá-lo, se eu me achava entre o Governador e o general Muricy? (revivi o dia da chegada). Como o receberia Mons. Samoré?”.

Quando Dom Helder começou a falar, logo iniciaram os aplausos. Falava mais um pouco, e outros aplausos: “Em certos momentos, quase tive de interferir, porque as aclamações estavam passando da conta… Quando acabei, o Governador não se conteve e foi o primeiro a dizer a palavra que mais ouvi, de todos: ‘Foi o maior e melhor discurso que você já fez’”. O general Muricy lhe deu um cordial aperto de mão, embora não tenha tocado no discurso. O mesmo fez Mons. Samorè. Paulo VI escreveu a Dom Helder aprovando e agradecendo pelo seu trabalho em vista da inauguração do Seminário.

Dom Helder discursou recordando que a Santa Sé desejou e, praticamente, construiu o Seminário Regional. Aquela casa, como todos os seminários do mundo, era destinada a formar sacerdotes, e a missão essencial do padre é o anúncio da Mensagem da Salvação. Mas a Igreja, continuadora de Cristo, tem o senso real: “o Seminário Regional se abre em 1965 e em Recife” – no coração do Nordeste brasileiro quando inicia a década do desenvolvimento: “Esta Casa preparará sacerdotes para evangelizar. Mas não se evangelizam seres abstratos, intemporais e residentes no vácuo. Evangelizam-se criaturas humanas, concretíssimas, inseridas no espaço e no tempo”.

Continuou dizendo que o Seminário nascia com a missão de dar ao conceito de “desenvolvimento” todo o seu vasto significado humano e sobrenatural e, nesse sentido, servia como exemplo o MEB – Movimento de Educação de Base – que buscava dar às massas em condições subumanas uma realização humana e cristã: mais do que simples alfabetização, buscou colocar “as criaturas em pé, abrir-lhes os olhos, despertar-lhes a consciência”.

Dom Helder acrescentou que seria triste se, devido ao nosso pecado de omissão, amanhã, as criaturas guardassem a “impressão de terem sido abandonadas pela Igreja” porque esta era cúmplice da burguesia (que cobre as injustiças com ofertas generosas para o culto e as obras sociais). E ressaltou:  “Nosso lema de desenvolvimento é a palavra de Cristo: ‘Venho para que tenham vida e vida em abundância’”.

O Arcebispo finalizou o discurso afirmando que o “Bom Pastor é figura que transcende a todos os séculos, mas em cada época se realiza conforme as exigências do tempo. Guardem esta imagem final: Sabem que ovelha o Cristo traz nos ombros ao cruzar os caminhos de hoje? É questão de abrir os olhos e ver: o Bom Pastor, aos ombros, traz o mundo subdesenvolvido”.

O tempo foi passando e, apesar de existir um gigante Seminário, os seminaristas queriam habitar em pequenas comunidades, nas paróquias. Eles almejavam uma formação mais sintonizada com as exigências eclesiais do Vaticano II e do contexto nordestino. Entendiam que a “casa grande” já não mais respondia às aspirações de quem queria ser “pastor do povo”. Dos 147 seminaristas, somente seis queriam permanecer na “casa grande” e, por isso, a direção do Seminário tentou caminhos novos.

Pe. Ivanir Antonio Rampon

Teólogo

Algumas fontes

Camara, Dom Helder. “Per una visione cristiana dello sviluppo”. In: Camara, Dom Helder. Terzo Mondo defraudato. Milano, Editora Missionária Italiana, p. 15-18, 1968, 19704.

Camara, Dom Helder. “Realismo da Igreja continuadora de Cristo”. Revista Vozes. Petrópolis, nº 5, p. 432-439, 1965. Discurso na inauguração do Seminário Regional do Nordeste, Pernambuco 2.5.1965.

Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomos I, II, III. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.

Rampon, Ivanir Antonio. Constrangido, Dom Helder pensa em renunciar a missão de Arcebispo de Olinda e Recife… In: Causos do Dom. Recife: Portal Oficial do Instituto Dom Helder Camara, 8.10.2026.

Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p.173-177, 2013.

Rocha, Zildo. “Introdução”. In: Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomo III. Recife: CEPE, 2009.


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