Causos do  Dom: Constrangido, Dom Helder pensa em renunciar a missão de Arcebispo de Olinda e Recife…

Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon

A construção do Seminário Regional do Nordeste foi um tema polêmico que Dom Helder teve de enfrentar nos primeiros anos de episcopado em Olinda e Recife. O Arcebispo desejava que o Seminário fosse o símbolo de uma nova formação seminarística. Ele gostava de dizer:  “O Seminário Regional – com a reformulação dos estudos, embebidos da mística e da espiritualidade da Igreja em Concílio – vai formar padres novos para o Novo Nordeste”.

A construção de um Seminário gigante, no entanto, foi exigindo cada vez mais dinheiro e, ao mesmo tempo, o projeto revelou-se de duvidosa eficácia. Na Circular Interconciliar nº 141, Dom Helder comenta que:

“os Bispos do Nordeste, inclusive D. Carlos [Coelho] não o queriam; os Bispos norte-americanos não o toleram. Já custou um bilhão; para terminar custará mais outro bilhão, ainda. Abrir-se-á, criando um déficit anual de funcionamento da ordem mínima de 45 mil dólares”. Além disso, tornará “difícil a formação dos seminaristas no espírito da Igreja Servidora e Pobre e, sobretudo, de Igreja dentro de uma área subdesenvolvida como o Nordeste”. Trata-se “de um equívoco de proporções desastradas, impingido, com a melhor das intenções, aos Bispos do Nordeste por Mons. Samoré”.

Diante da quase obrigação de efetivar uma obra em contradição com as suas convicções mais profundas, Dom Helder pensou até em abandonar a Arquidiocese de Olinda e Recife. Mas, por outro lado, questionava-se: não fora a Providência que o levara aí? O que deveria fazer?

As Circulares revelam o drama interior vivido por Dom Helder: enquanto ele tentava conseguir vultosa quantia de dinheiro para construir o gigante Seminário, continuava a seca, aprofundava-se a crise econômica do país e, consequentemente, crescia a miséria e a fome. No Brejo, um porco esfomeado comeu a terça parte de uma criança, homens famintos se alegravam ao comer uma abóbora e triplicou o número de pedintes no Palácio. Os gastos com o Seminário levavam todo o dinheiro: “Como me custa, especialmente nesta hora de seca e de fome, arrancar da boca dos Pobres para inaugurar o Seminário!…”

Em março de 1965, o Núncio Apostólico, Sebastião Baggio, visitou Dom Helder e, tenso, lhe disse que considerava “um desastre de consequências imprevisíveis a não inauguração do Seminário Regional no dia 2 de maio”. Quando o Dom acenou para a mística de “o Seminário crescerá com o Nordeste”, lhe respondeu que “a educação é uma ciência e não u’a mística” e, então, passou a dizer que ouviu numerosas queixas contra Dom Helder tanto de eclesiásticos quanto de autoridades governamentais. Acusavam-no de preocupar-se muito com o social descuidando da dimensão pastoral, de realizar gestos que comprometiam a dignidade episcopal e de abusar do Concílio Vaticano II. Disse-lhe ainda que não concordava com essas acusações, mas que o Arcebispo deveria “pensar nos outros”. [Cf. Circular Interconciliar 171A de 19/20-3-65. Esta Circular fora tirada da série, talvez por conter um assunto delicado e tenso com autoridade eclesiástica, mas depois o Dom a colocou novamente].

Diante da gravidade das acusações, Dom Helder deixou o Núncio à vontade quanto ao seu destino e não guardou mágoa de ninguém. Dias depois, em Roma, no entanto, Paulo VI o tratou com extrema cortesia, carinho e respeito. O Papa lhe disse: “Não esquecerei jamais nossa visita à Favela. Que alegria ter o Bispo no meio do povo, cercado pelo amor dos Pobres”. E pediu: “Independentemente de qualquer atuação oficial, comece, em Recife, o trabalho das casas! Mas faça como no Rio: não mande apenas fazer… Vá, cada vez mais, para o meio do povo”. De volta a Recife, Dom Helder anotou que o Santo Padre aprovou o slogan: “o Seminário Regional crescerá com o Nordeste”.

O ex-assessor de Dom Helder e escritor Zildo Rocha comenta:

“o impacto da miséria, provavelmente ainda mais degradante que a do Rio [de Janeiro] e que, não raro, o deixava sem disposição para comer, colocava-o numa situação de grande constrangimento, ao ter de gastar milhões de cruzeiros (não raro dinheiro destinado aos pobres) para avançar a construção e acelerar a inauguração daquele Seminário colossal em Camaragibe em completo contraste com tudo o que ele desejava para a formação de seus futuros padres… […] Essa situação, mais de uma vez, o fez pensar em suspender a obra e, mesmo, em renunciar à Arquidiocese, desvinculando-se da engrenagem”.

Pe. Ivanir Antonio Rampon

Teólogo

Algumas fontes

Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomos I, II, III. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.

Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p.170-172, 2013.

Rocha, Zildo. “Introdução”. In: Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomo III. Recife: CEPE, p. 26-27, 2009.


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