Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon
Retornando de Roma, do Terceiro Período do Vaticano II (14 de setembro a 21 de novembro de 1964), Dom Helder pôde notar a saudade que a sua ausência causou aos seus amigos e colaboradores. No dia 23 de novembro, mais de 60 jovens lhe fizeram uma “deliciosa serenata” que até a lua ficou encantada. Os assistentes sociais do Banco da Providência apresentaram um balanço das atividades realizadas durante a sua ausência. Enfim, vários gestos que o Povo realizou na sua volta, revelavam o amor que sentiam pelo novo Pastor.
No dia 24 de novembro, Dom Helder fez uma conferência sobre o Concílio com transmissão televisiva em Recife. Afirmou que o Vaticano II era um evento importante para todos – não somente para os católicos – porque visa o ecumenismo. Defendeu a proximidade do Papa e dos Bispos com o povo. Falou também de problemas dos países subdesenvolvidos sufocados pelos países ricos e suas multinacionais.
No dia seguinte, o general Antônio Carlos da Silva Murici, comandante da 7ª Região Militar, o procurou para lhe comunicar a estranheza do IV Exército diante da alocução antirrevolucionária, principalmente ante a frase: “É bom que o Bispo entre nas filas e escute o povo. Veja, ouça, sinta a reação do povo na hora dura em que a carne está a 1.400 cruzeiros e o feijão marchando para 500 cruzeiros… Conheça o que o povo está pensando da modificação da lei do inquilinato”. Dom Helder defendeu-se dizendo que sua intenção não era criticar a “Revolução”. O general então rebateu queixando-se que o Arcebispo não fez nenhum elogio à “Revolução”.
A amizade entre os dois não acabou naquele momento, porque, talvez, ambos não desejavam. Dom Helder evitava qualquer imprudência, mas também não queria se deixar intimidar mantendo silêncio. Nos dias seguintes o General faz vários “agrados” a Dom Helder na tentativa de evitar os atritos com o Arcebispo e a Igreja. Dom Helder, por sua vez, respondia com respeito e cordialidade.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Teólogo
Algumas fontes
Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomos I, II, III. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.
Piletti, Nelson e Praxedes, Walter. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Editora Ática, p. 326-327, 1997.
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 169-170 e 245-249, 2013.
Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 96, 2014.


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