“… levar a cidades-chave do Mundo o que o Vaticano II nos traz de melhor:
a atitude de diálogo; o espírito ecumênico; a decisão de servir”
Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon
No final de outubro de 1964, Dom Helder viajou a Genebra para várias atividades tais como palestra no teatro oficial da cidade, palestra em Berna, batizado, pregação em uma paróquia, encontro com banqueiros, encontro com Pastores.
Ele sentiu que a Providência o havia levado àquele lugar, não somente para realizar aquelas atividades, mas para lhe transmitir um apelo: “Quem sabe, Deus me quer levando a outras Cidades-chaves do Mundo, a Mensagem que, a partir de minha chegada, ontem, a Genebra, me vem sendo dado a transmitir, sem parar?…”.
Para ajudá-lo no discernimento, recorreu à Família Espiritual: “Volto a perguntar a mim mesmo e a vocês, nesta Vigília: para ser fiel à missão de Profeta […] deverei, sem prejuízo do trabalho essencial de minha Diocese, partir, como Bispo do Mundo e ajudar os irmãos a encontrar o perdido caminho do amor a Deus e aos homens?…”.
Dom Helder estava feliz porque a Providência lhe confiara Olinda e Recife, mas discernia se Deus não estava pedindo mais: “Quero muito apurar se, de fato, se pode pensar em Vocação (em carisma!) de ser apóstolo – conforme as circunstâncias – da aproximação dos povos e particularmente da aproximação entre Mundo Desenvolvido e Mundo Subdesenvolvido”.
Na noite de 3 de novembro, durante a Vigília, depois de pedir ao Pai numerosos Borromeus para que fizessem com o Vaticano II o que o São Carlos Borromeu fizera com o de Trento, Dom Helder confirmou-se na vocação complementar:
“em plena Vigília de São Carlos, me confirmo em minha vocação complementar de pregador do Vaticano II. Vocação complementar no tocante à pregação fora de minha Diocese. Lá, é claro, um com o meu Clero e os meus Leigos, devemos fazer de tudo para levar à prática as conclusões do Concílio (como já estávamos fazendo, de cheio, com a Liturgia). Mas Berna me confirmou no tocante ao carisma especial de ir, como Bispo da Santa Igreja, como Bispo católico, levar a cidades-chave do Mundo o que o Vaticano II nos traz de melhor: a atitude de diálogo; o espírito ecumênico; a decisão de servir…”
Muitas das pregações que Dom Helder fez pelos mundo afora enquanto “pregador do Vaticano II” estão registradas nas Circulares enviadas à Família Espiritual, em artigos de revistas, em capítulos de livros.
O teólogo José Comblin, entre outros, defende que Dom Helder se tornou uma das melhores concretizações de um Bispo configurado ao modelo proposto pelo Vaticano II, assim como São Carlos foi em relação a Trento.
Segundo Comblin, o Dom é um típico Bispo do Vaticano II, porque descobriu que seu lugar é o mundo. Ele percebeu que deveria ser um homem de relações públicas, engajado na busca de soluções dos problemas sociais que afetam o povo de Deus. As dores e as alegrias, as angústias e as esperanças da humanidade, especialmente dos pobres, tornaram-se as suas. Ele não quis ser um “Bispo-seminarista” nem um “Bispo-príncipe”, mas um autêntico “Bispo-pastor”.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Teólogo
Algumas fontes
Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomos I, II, III. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.
Comblin, José. “Dom Helder e novo modelo episcopal no Vaticano II”. In Maria Bernarda Potrick. Dom Helder, pastor e profeta, São Paulo: Edições Paulinas, p. 24-40, 1983.
Comblin, José. “Dom Helder, bispo do Terceiro Milênio”, in Z. Rocha, ed., Helder, o Dom. Uma vida que marcou os rumos da Igreja no Brasil, Petrópolis 1999, 91-94.
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 224-227, 2013.
Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 72-75, 2014.


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