Outras Palavras: Padre Vito Miracapillo É Cidadão Pernambucano

Por Artur Peregrino[1]

Por que o título de cidadão de pernambucano ao Pe. Vito Miracapillo? Para corrigir uma grande injustiça! Um acontecimento histórico ocorreu há 46 anos, em outubro de 1980, no município de Ribeirão – PE, com a injusta expulsão do Brasil do padre italiano Vito Miracapillo, sob o regime militar. O padre Vito Miracapillo estava agindo dentro das normas do magistério da Igreja, sobretudo com base nas conferências episcopais de Medellin (1968) e Puebla (1979). O trabalho pastoral desenvolvido pelo religioso era consequente na sua firme posição de defender os trabalhadores empobrecidos e explorados pelos senhores de engenho e usineiros da região da Zona da Mata Sul do Estado de Pernambuco. A decisão de expulsão foi uma trama política/jurídica da classe dominante no contexto brasileiro já de abertura política. O Estatuto do Estrangeiro foi, indiretamente, declarado constitucional e a decisão presidencial do governo militar de expulsão foi reafirmada. Bloquear o trabalho do padre Vito Miracapillo foi, na realidade, interditar um trabalho de promoção da vida de trabalhadores explorados que tinha encontrado no trabalho desenvolvido pela Igreja um apoio concreto e solidário a suas reivindicações por justiça e liberdade.  

Nesta época a voz profética de Dom Helder já se fazia presente no mundo inteiro. Há poucos tempos o presidente da República tinha dado um golpe duro na ordem constitucional e na sociedade brasileira criando o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que fechou o Congresso resultando em perda de mandatos de parlamentares contrários aos militares, suspensão de quaisquer garantias constitucionais que eventualmente resultaram na institucionalização da tortura, morte e desaparecimento, comumente usada por agentes configurando ação e instrumento do Estado.

Quando o padre Vito Miracapillo chega em Pernambuco em finais de 1975 encontra em andamento a Igreja dos Pobres sonhada pelo Papa João XXIII, a Igreja do Concílio Vaticano II que atualizou seus documentos com a Conferência de Medellin (1968) e Puebla (1979). A figura de Dom Hélder em Recife era uma grande referência para um trabalho de Igreja que levasse em conta as grandes inquietações da humanidade naquele momento. Por isso, o enfoque na questão social, para a qual padre Vito canalizou suas forças, lutando para que os empobrecidos pudessem ser reconhecidos e respeitados em sua dignidade.

Nessa época, no Estado de Pernambuco e por todo Brasil, proliferaram Comunidades de Base (CEBs) tanto na cidade como no campo. Essas comunidades eram acompanhadas por lideranças religiosas entusiasmadas e padre Vito Miracapillo era uma delas. Passou a ser um profeta no meio do povo sofrido. O profeta é o homem da palavra de denúncia, que anuncia, que consola e que constrói o horizonte utópico sem o qual ninguém nem a sociedade pode viver. E quando a fala é acompanhada de um compromisso efetivo e afetivo as consequências logo chegam.

O povo de Ribeirão crucificado nos canaviais é, em definitivo, o que deu sentido a missão do padre Vito. Foi o mesmo que aconteceu em março de 1980 com Dom Oscar Romero, santo mártir da Igreja dos pobres, ao se colocar no seguimento de Jesus de Nazaré. Como Dom Oscar Romero, hoje São Romero da América, o padre Vito Miracapillo anunciou o reino de Deus e o Evangelho para as vítimas, mas também foi perseguido como Jesus e confrontou-se com os ídolos de morte.

O jovem padre italiano, Vito Miracapillo, chega ao Brasil em 1975 – em plena vigência do AI5, a convite de Dom Acácio Rodrigues Alves, bispo de Palmares, para assumir a paróquia de Ribeirão – PE que dista 80 quilômetros de Recife, capital de Pernambuco. O jovem missionário já chega ao Brasil com o documento de Medellin em sua bagagem. É visível sua postura de despojamento para uma Igreja servidora dos pobres e para isso faz um gesto significativo trocando a casa paroquial no centro da cidade por uma menor na periferia, em uma vila. Também recusou a ajuda financeira da prefeitura que era comum assumir o pagamento de luz, água e combustível para o carro do vigário. Mostrando claramente um distanciamento dos poderes constituídos e se aproximando dos trabalhadores do campo marginalizados, e não dos poderosos.

Diante dessa realidade encontrada as opções de vida e trabalho pastoral do novo vigário da cidade do Ribeirão mostrava claramente a sintonia com o caminhar da Igreja progressista e libertadora. Na época, surgiram vários documentos da Igreja que só reforçaram a caminhada e nova fase da Igreja do Brasil, que dentre os quais podemos citra: “Exigências cristãs de uma ordem política” (1971), “Marginalização de um povo, o grito das Igrejas” (1973), “Eu ouvi os clamores do meu povo” (1973). Esses documentos da CNBB desencadearam, a nível de Nordeste do Brasil, um grande entusiasmo na missão e aprofundamento de uma Igreja servidora dos pobres e ao mesmo tempo instigaram uma carga ininterrupta de críticas contra o modelo de desenvolvimento imposto pelo regime militar e as classes dominantes.

Coerente com o espírito da “opção pelos pobres”, tão bem explicitada e tematizada pela teologia latino-americana, o padre Vito Miracapillo fez dos pobres uma questão primeira e central na vida da Igreja e de sua missão. Como disse Dom Acácio Rodrigues, seu bispo, “a sua linha pastoral está de acordo com a doutrina do Vaticano II e dos documentos de Puebla e da CNBB”. A preocupação primeira do padre Vito não foi sua autoridade ou imagem pública, nem a doutrina da Igreja, mas o sofrimento dos irmãos camponeses. Com sua vida disse que veio “para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).

Padre Vito Miracapillo atraiu a ira dos poderosos latifundiários porque rompeu com um modelo de Igreja autorreferencial e advogou por uma “Igreja samaritana” que foi expressa pelo Papa Francisco – quatro décadas depois – da seguinte maneira: “Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o nível de açúcar altos. Primeiro, deve-se curar as suas feridas. Depois podemos nos ocupar do restante. Curar as feridas. É necessário começar de baixo”

Outubro de 1980 ficará na história da Igreja no Brasil como um dia de bem-aventurança porque “felizes são os que sofrem perseguição por amor a justiça” (Mt. 5,10), e esse é o caso do padre Vito Miracapillo. O Título Honorífico de Cidadão Pernambucano é uma honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (Alepe) a pessoas que não nasceram no estado, mas que tenham prestado relevantes serviços ou demonstrado elevado espírito público em prol de Pernambuco e essa pessoa neste 21 de setembro de 2026 é Pe. Vito Miracapillo.

Neste holl de solidariedade espalhado por todo Brasil destaco a do padre Reginaldo Veloso, poeta e compositor, então administrador do Santuário de Nossa Senhora da Conceição no Recife que fez o hino: Vito, Vito, Vitória. Foi o bastante para também ser processado por compor essa música de protesto. Não esqueçamos que os anos eram de chumbo.

No Ribeirão da opressão alguém de longe vem ser irmão,

/:ser companheiro na escravidão na caminhada libertação…:/

Senhor-de-engenho dono de usina do lucro segue a disciplina:

/:ganhar dinheiro é sua sina só ambição é sua rima!:/

VITO, VITO, VITÓRIA!


[1] Artur Peregrino é professor de teologia e membro do Instituto Humanitas UNICAP.  


Descubra mais sobre Dom Helder Camara Oficial

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Dom Helder Camara Oficial

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo