Causos do Dom: Dom Helder transforma o Palácio do Bispo em Casa dos Pobres

Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon

Dom Helder quis transformar o Palácio do Bispo em Casa dos Pobres. Ele próprio promoveu a feliz invasão do Palácio: “E continua e aumenta sempre mais a invasão do Palácio de São José de Manguinhos”.

O edifício localiza-se na Rua Rui Barbosa, o poeta que lutou contra a escravidão e a favor da liberdade. Para Dom Helder, isto se tornava um símbolo. Naquele Palácio, situado naquela rua, dever-se-ia trabalhar contra a escravidão e em favor da liberdade – ser um espaço de encaminhamentos de atividades pastorais que visassem completar o 13 de maio de 1888.

Nesse sentido, ele vibrou quando as crianças ocuparam os tronos: “[…] as crianças descobriram os tronos. Agora, são elas que se entronizam para grande alegria nossa (minha e de Nosso Senhor) […]. Que Nossa Senhora continue a velar por nossa pureza de intenção e nossa humildade, nosso espírito infantil e nosso amor”.

Para não deixar os pobres em desconforto, enquanto aguardavam o momento de falar com o Pastor, Dom Helder resolveu dar um “golpe de Estado” a fim de evitar uma longa negociação, e “decretou” que um dos salões de honra seria sala de espera. Houve reclamações de que o tapete ficaria imprestável… Mas entre um tapete e um filho de Deus, o Dom não vacilou na escolha.

      Por outro lado, ele se viu obrigado a aceitar a “humilhação” de não poder abrir todos os portões e romper as grades que impediam o acesso dos pobres ao Palácio: “Não consegui ainda abolir grades e portões… […] Já dormiram, num casarão enorme a sós com Deus e os anjos?… Que vontade de encher estes quartos com todos os que, a esta hora, dormem ao relento e são, no entanto, mais donos do Palácio do que eu!… Quando romperemos preconceitos que nos escravizam e nos tolhem os movimentos e a liberdade?…”.

      Na Circular 57, Dom Helder escreve:

      “[…] como é difícil mudar a mentalidade mesmo de quem é bom e sinceramente cristão… […] De manhã, de tarde, de noite, quando me sento à mesa, Pobres batem à porta. É ou não Jesus Cristo quem bate na pessoa deles? O que seria lógico? (Não pela deformada lógica dos homens, mas pela evidente e segura lógica de Deus.) Fazer entrar Cristo pela porta mais nobre e fazê-lo sentar-se à mesa… Cedo a argumentos que não me convencem e aceito a humilhação de ver, na própria casa, Cristo encaminhar-se a uma porta traseira, onde recebe restos de comida, dados com carinho, eu sei…”.

As dificuldades encontradas para viver a simplicidade e o espírito da pobreza evangélica ajudavam-no a compreender Paulo VI na sua meta de reformar a Cúria Romana. “Ontem, entendi, como nunca, a dificuldade do Santo Padre em reformar a Cúria Romana: porque somente ontem, depois de ensaios frustrados, consegui livrar-me da tirania do Aero Willys. Agora, está mesmo decretado: carro só mesmo em horas muito oficiais ou quando a premência de tempo de fato o exigir”. O carro passou a ser usado como ambulância para transportar pobres ou as servidoras dos pobres.

Pe. Ivanir Antonio Rampon

Teólogo

Algumas fontes

Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomo I. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.

Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 160-161, 2013.


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