Causos do Dom: Novo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Camara: onde moram os pobres? Primeiro compromisso visitar os Mocambos

Causos do Dom: Novo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Camara: onde moram os pobres? Primeiro compromisso visitar os Mocambos

Colaboração: Pe. Ivanir Rampon

Dom Helder iniciou suas atividades em Recife colocando em prática a Mensagem de Chegada. Logo após a posse, o seu primeiro grande compromisso foi visitar e conhecer os mocambos, nos alagados e córregos. Foi dialogar e amar os pobres!

No dia 14 de março, acompanhado de uma equipe da revista O Cruzeiro, fez questão de visitar os chamados Mocambos a fim de realizar um primeiro de outros milhares de contatos. Nessa ocasião, os pobres lhe ensinaram que o termo “Mocambo” significa barraco e não favela como pensava o Arcebispo. No Recife, as favelas são chamadas de Morro, Alagado, Córrego. Ele também descobriu que os Alagados eram “muito pior do que as nossas [do Rio de Janeiro] mais tristes Favelas…”.

Dom Helder descobriu, mais tarde, em agosto de 1964, num estudo mimeografado – “Políticas de Desenvolvimento do Recife Metropolitano” –, que “apenas 9% dos Mocambos (exatamente 8,7%) são próprios. Tudo o mais é alugado”.

Dom Helder queria acelerar a “obra cristã e de evangelização, o esforço do desenvolvimento”. Almejava arrancar os pobres do subdesenvolvimento, pois via neles o Cristo que no Nordeste se chama Zé, Antônio, Severino… “Ele é o homem que precisa de justiça, que tem direito à justiça, que merece justiça”.

O contato com o povo de Recife, especialmente dos Mocambos, deu-lhe forças para ir pensando na sua missão de Pastor no coração do subdesenvolvimento: “Curioso: sinto o mesmíssimo calor dos 27 anos, ao chegar ao Rio… A chama sagrada, longe de abater-se, está mais viva e crepitante”.

Chamou-nos a atenção, no início do Pontificado do Papa Francisco, as semelhanças dos seus gestos com os de Dom Helder quando assumiu a missão de Arcebispo em Olinda e Recife. Aqui, citamos apenas dois gestos: 1) Dom Helder visitou os mocambos e Francisco, Lampedusa; 2) Dom Helder não quis morar no Palácio e, mais tarde, foi morar na Igreja das Fronteiras e Francisco quis morar na Casa Santa Marta…

No livro, Francisco e Helder – sintonia espiritual, apresentamos outros gestos que revelam a sintonia espiritual destes dois luminares da opção pelos empobrecidos. De fato, os gestos simbólicos de Francisco ajudaram a mudar o ambiente eclesial, aproximando a Igreja do mundo e suscitando a esperança de uma nova primavera eclesial. Francisco, antes de escrever encíclicas e exortações, realizou uma série de gestos simbólicos de intensa força espiritual que foram captados por todo o mundo e divulgados pelos meios de comunicação.

Tais gestos haviam sido vividos por muitos pastores que assumiram o espírito do Vaticano II e o Pacto das Catacumbas e, Dom Helder, talvez tenha sido o expoente máximo desta opção no seio do episcopado. Dom Helder foi um pastor “com cheiro de ovelhas” e olhava o mundo a partir das periferias sociais e existências.

Pe. Ivanir Antonio Rampon

Teólogo

Algumas fontes

Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomo I. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.

Câmara, Dom Helder. Discurso de tomada de posse como Arcebispo de Olinda e Recife, pronunciado na Praça do Diário, no dia 11 de abril de 1964 in Câmara, Dom Helder. Utopias peregrinas. Recife: UFPE, p.15-28, 1993.

Rampon, Ivanir Antonio Francisco e Helder – Sintonia Espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 20 e 120, 2016.

Rampon, Ivanir Antonio. Dom Helder e a Mensagem de Chegada: “se naquela ocasião não tivesse tido a coragem de dizer tudo aquilo, talvez, nunca mais teria a força para dizê-lo”. Causos do Dom. Recife: Portal Oficial do Instituto Dom Helder Camara, 4.6.2026.

Rampon, Ivanir Antonio. Dom Helder: “Claro que amando a todos, devo ter, a exemplo de Cristo, um amor especial pelos pobres”. Causos do Dom. Recife: Portal Oficial do Instituto Dom Helder Camara, 28.5.2026.

Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 147, 154-156, 2013.

Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 89, 2014.


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