Causos do Dom: IV Exército: intimidar ou dar mordomias a Dom Helder Camara? Dom Helder: Minha porta e meu coração estarão abertos a todos, absolutamente a todos

Causos do Dom: IV Exército: intimidar ou dar mordomias a Dom Helder Camara?

Dom Helder: Minha porta e meu coração estarão abertos a todos, absolutamente a todos

Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon

Logo depois de sua chegada à Recife, em abril de 1964, o novo Arcebispo Dom Helder Pessoa Camara logo começou a ser visitado no Palácio São José de Manguinhos por parentes de presos políticos que lhe pediam socorro. No dia seguinte à tomada de posse, enquanto estava almoçando com Dom José Távora, entrou uma moça gritando e suplicando ajuda. Quatro policiais armados com metralhadoras queriam prendê-la.

Dom Helder mostrou aos soldados a gravidade de invadir a casa do Arcebispo com metralhadoras. As ruas encheram-se e logo chegou a imprensa, inclusive a estrangeira. O Arcebispo ligou para o comandante do IV Exército, Coronel Justino Alves Bastos, que se mostrou indignado com a ação. Os soldados ficaram apavorados e o próprio Dom lhes assegurou que nada aconteceria.

O Coronel Justino, então, espalhou a informação de que os soldados entraram no palácio episcopal porque receberam uma informação errada de que a irmã do Governador deposto, Miguel Arraes, estava em Manguinhos.

Sobre esse episódio há uma hipótese de que, já de início, o Coronel Justino queria intimidar Dom Helder – o próprio Arcebispo escreveu que o episódio “valeu, providencialmente, como um teste” –, porém, ao ficar sabendo da “amizade” deste com Castelo Branco e a sua esposa, percebeu que deveria mudar de tática: o Exército, então, fazia questão de oferecer “mordomias” – a Aeronáutica, inclusive, ofereceu passagens grátis de avião.

De fato, Dom Helder mantinha contato direto com o Presidente Castelo Branco. Quando ainda vivia no Rio de Janeiro, a esposa de Castelo Branco seguia e apreciava os programas de rádio e televisão do Bispo. Além disso, o Presidente, que também era cearense, estava convencido de que seu conterrâneo não era comunista.

Dom Helder, em troca dos bons tratamentos recebido dos chefes do IV Exército, participava nos eventos militares e até chegou a pensar que a “Revolução” poderia se tornar uma iniciativa democrática. O Arcebispo até sonhou que o ex-prisioneiro Paulo Freire pudesse ser seu colaborador na missão catequética.

No entanto, neste momento, havia um ponto de discórdia entre Dom Helder e os militares, ou seja, o Arcebispo Metropolitano não concordava com as detenções que estavam acontecendo. Os militares insistiam para que ele não visitasse os prisioneiros políticos, mas o Pastor queria “ouvir a todos”. Isso tornava polêmicas as próprias reuniões dos militares que não sabiam se era melhor permitir ou proibir as visitas. De fato, os chefes do IV Exército ouviram Dom Helder dizer na Mensagem de Chegada:

“Ninguém se espante me vendo com criaturas tidas como envolventes e perigosas, da esquerda ou da direita, da situação ou da oposição, antirreformistas ou reformistas, antirrevolucionárias ou revolucionárias, tidas como de boa ou de má-fé. Ninguém pretenda prender-me a um grupo, ligar-me a um partido, tendo como amigos os seus amigos e querendo que eu adote as suas inimizades. Minha porta e meu coração estarão abertos a todos, absolutamente a todos. Cristo morreu por todos os homens: a ninguém devo excluir do diálogo fraterno”.

Por estar com as portas e o coração abertos para todos e por defender a vida e a liberdade, a justiça e a paz, Dom Helder terá de enfrentar sérios problemas com o regime político que sustentará a secular desigualdade social e desrespeitará continuamente os Direitos Humanos no Brasil. O Arcebispo será difamado, execrando e silenciado nos anos seguintes.

Pe. Ivanir Antonio Rampon

Teólogo

Algumas fontes

Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomo I. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.

Câmara, Dom Helder. Discurso de tomada de posse como Arcebispo de Olinda e Recife, pronunciado na Praça do Diário, no dia 11 de abril de 1964 in Câmara, Dom Helder. Utopias peregrinas. Recife: UFPE, p.15-28, 1993.

de Renedo, Benedicto Tapia. Hélder Câmara: proclamas a la juventud. Salamanca: Ediciones Sigueme, p. 23, 1976.

Gonzáles José. Helder Câmara: il grido dei poveri, Roma: Edizione Pauline, p. 141, 1970, 19764.

Rampon, Ivanir Antonio Francisco e Helder – Sintonia Espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 121-122, 2016.

Rampon, Ivanir Antonio. Dom Helder e a Mensagem de Chegada: “se naquela ocasião não tivesse tido a coragem de dizer tudo aquilo, talvez, nunca mais teria a força para dizê-lo”. Causos do Dom. Recife: Portal Oficial do Instituto Dom Helder Camara, 4.6.2026.

Rampon, Ivanir Antonio. Dom Helder: “Claro que amando a todos, devo ter, a exemplo de Cristo, um amor especial pelos pobres”. Causos do Dom. Recife: Portal Oficial do Instituto Dom Helder Camara, 28.5.2026.

Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 152-153 e 246-247, 2013.

Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 99-100, 2014.


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