Causos do Dom: Dom Helder e a Mensagem de Chegada: se naquela ocasião não tivesse tido a coragem de dizer tudo aquilo, talvez, nunca mais teria a força para dizê-lo
Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon
A Mensagem de Chegada pronunciada por Dom Helder Camara, em 14 de abril de 1964, quando assumiu a missão de Arcebispo de Olinda e Recife, transformou-se em fonte de estudos e meditações ao longo dos anos tendo em vista seu profundo teor espiritual. Alguns estudiosos dizem que ela representa o início da resistência da Igreja ao regime político a pouco instalado, pois defende as reformas de base, as quais o Governo ditatorial impedirá.
Sebastião Ferrarini
Sebastião Antonio Ferrarini entende que, desde o discurso de posse, Dom Helder passou a ser visado: “Daí para a frente, até meados da década de 80, ele passa a ser um problema para o Estado, a Igreja, as oligarquias, os militares e a Justiça. Todos esses grupos, segmentos ou instituições vão altercar com o Arcebispo quando esse, em suas falas, os atingir. Em que pese a sua orquestração, não deterão o seu vigor, que irá crescendo significativamente”.
Marcos Cirano
Marcos Cirano comenta que o golpe não admitia outras tomadas de posição senão a de ser “revolucionário” ou “anti-revolucionário”. E, como Dom Helder “não aceitou tal dicotomia, reservando-se o direito de discordar do que entendesse errado, acabou se transformando no representante da Igreja Católica que, até hoje [1982] teve maior número de atritos com os militares brasileiros”.
José González
A Mensagem de Chegada dava à esquerda a impressão de que Dom Helder seria um Bispo protetor dos perseguidos, pois ele defendia a realização das reformas de base; mas, ao mesmo tempo, dava à direita a impressão de que ele queria efetivar uma boa relação com o novo Governo implementado no país. Em outras palavras, a Mensagem dá a entender que o Arcebispo aceitava o regime desde que os governantes efetivassem as reformas. Nesse sentido, José González comenta que as palavras foram, simultaneamente, prudentes e corajosas: o novo Arcebispo estava propenso a dar crédito aos militares até que se pudesse verificar a prática das boas intenções. Mas também era um discurso corajoso tendo em vista a circunstância política. O próprio Helder lhe falou, posteriormente, que, se naquela ocasião não tivesse tido a coragem de dizer tudo aquilo, talvez, nunca mais teria a força para dizê-lo.
José Cayuela
José Cayuela após comentar que a Mensagem é uma das mais eloquentes e representativas do pensamento helderiano, acrescenta que revela uma atitude política hábil para um prelado que chegava a Recife nos dias implacáveis da repressão desatada por um grupo de militares apoiados por parcela da hierarquia católica contra o clero progressista, os jovens católicos militantes, homens e mulheres de esquerda que se inspiravam nos Bispos nordestinos.
Ernani Pinheiro
Ernani Pinheiro recorda que, quando Dom Helder chegou, Recife era palco de numerosas arbitrariedades, repressões e mortes. O clima de medo invadia a população. Sua Mensagem de Chegada procurou desarmar os espíritos, embebida de sabor profético e missionário. Ele plantou uma semente que prosperou nos 20 anos vindouros. Sua presença ia irradiando confiança e sedimentando na Arquidiocese a mística do compromisso evangélico: “Ele não chegou com um plano de pastoral preestabelecido, mas com a coragem de ser fiel aos apelos da Igreja, aos apelos do Espírito em meio a este povo que espelha de tantas maneiras o rosto de Cristo sofredor”.
Luigi Muratori
Luigi Muratori entende que a expressão “Bispo de todos” – polêmica tanto para a direita que estava no poder, quanto para a esquerda próxima do cárcere – revela uma dose de coragem, principalmente diante da intolerância dos detentores do poder naquele momento. Mas por outro lado, Dom Helder não queria que sua ação pastoral fosse censurada; queria independência política de acordo com as diretivas emanadas das Encíclicas Sociais de João XXIII e do Vaticano II.
José Comblin
José Comblin destaca que a declaração de dialogar com todos, quando chegou a Recife, representou o segundo momento importante na vida de Dom Helder no sentido de provocar transformações profundas. A primeira foi o encontro com o Cardeal Gerlier e a terceira será a Mensagem de Paris.
Dom Helder escreveu, durante a Vigília, a sua própria avaliação, destacando que deu testemunho de cristão e de Bispo:
Não me iludo: a imprensa do Rio e de São Paulo, como a daqui, podem interpretar mal a mensagem julgando-a perigosa, aliciadora do comunismo que as Forças Armadas estão a duras penas procurando extirpar… O Comando Supremo da Revolução pode achar ruim. […] Alegra-me pensar que, com a graça de Deus, dei testemunho cristão, fui Bispo, estive à altura da exigência histórica, procurando não trair e não decepcionar milhares de cristãos, com olhos e corações voltados para a circunstância providencialíssima da posse do Arcebispo da cidade-chave do Nordeste-chave. Vejamos o que sucede. In manus tuas!
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Teólogo
Algumas fontes
Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares. Tomos I. Recife: CEPE, (organizador: Zildo Rocha), 2009.
Câmara, Dom Helder. Discurso de tomada de posse como Arcebispo de Olinda e Recife, pronunciado na Praça do Diário, no dia 11 de abril de 1964. In: Câmara, Dom Helder. Utopias peregrinas. Recife: UFPE, p.15-28, 1993. A mensagem foi publicada em diversos locais e pode ser acessada aqui https://pt.slideshare.net/slideshow/mensagem-da-tomada-de-posse-de-dom-helder/33414281
Cayuela, José. Hélder Câmara – Brasil: ¿un Vietnam católico? Santiago de Chile – Buenos Aires – México – Madrid – Barcelona: Pomaire, p. 167-168, 1969.
Cirano, Marcos. Os caminhos de Dom Helder: perseguições e censuras (1964-1980). Recife: Editora Guararapes, p. 9, 1983.
Comblin, José. “Entrevista realizada por Martinho Condini no dia 26 de julho de 2000”. In: Condini, Martinho. Dom Helder Camara: um modelo de esperança. São Paulo: Paulus, p. 164-167, 2008.
Ferrarini, Sebastião Antonio. A imprensa e o arcebispo Vermelho: 1964-1984. São Paulo: Paulinas, p. 65, 1992.
Gonzáles José. Helder Câmara: il grido dei poveri, Roma: Edizione Pauline, p. 131.136-138, 1970, 19764.
Muratori, Luigi “Le sue parole e l’Opera”. Bourgeon, Roger. Il profeta del Terzo Mondo (L’arcivescovo delle favelas). Milano: Editrice Massimo, Collana Testimoni del nostro tempo 1, p. 243, 1970.
Pinheiro, José Ernanne. “Dom Helder Câmara como Arcebispo de Olinda e Recife – um depoimento pastoral”. In: Potrick, Maria Bernarda. Dom Helder, pastor e profeta. Maria Bernarda Potrick. São Paulo: Edições Paulinas, p. 45, 1983.
Rampon, Ivanir Antonio Francisco e Helder – Sintonia Espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 121-122, 2016.
Rampon, Ivanir Antonio. Dom Helder: “Claro que amando a todos, devo ter, a exemplo de Cristo, um amor especial pelos pobres”. Causos do Dom. Recife: Portal Oficial do Instituto Dom Helder Camara, 28.5.2026. https://domheldercamara.org.br/2026/05/28/causos-do-dom-92/
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 145-154, 2013.
Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 88-89, 2014.


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