Causos do Dom Helder: “O que São Vicente faria se estivesse vivendo entre nós?” Dom Jaime diz a Dom Helder: “Filho (…) teremos que nos separar”
Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon
Por mais de dez anos, a relação entre o Arcebispo Auxiliar do Rio de Janeiro Dom Helder e o Arcebispo Metropolitano Cardeal Câmara foram excelentes. As diferenças não os separavam, mas os uniam ainda mais até que, em 19 de julho de 1960, Dia de São Vicente de Paulo, começaram a separar. A Missa em Honra a São Vicente fora presidida pelo Cardeal e a Dom Helder coube falar do Santo. Era uma celebração muito solene em uma das maiores igrejas do Rio de Janeiro, que estava lotada.
Dom Helder começou dizendo que o mais importante não era recordar aquilo que São Vicente havia feito, até porque todos já sabiam. Continuou afirmando que o Santo nem precisa de nossos elogios, pois não acrescentariam nada à sua glória. Em seguida, afirmou que a melhor maneira de honrar Vicente de Paulo era se perguntar o que ele faria se estivesse vivendo entre nós. Ao seu tempo, Vicente fez o que lhe ditava a sua consciência e seu amor aos pobres, “mas estou convicto, se vivesse hoje, o apóstolo da caridade, buscaria fazer a justiça”.
A partir de então, Dom Jaime passou a ter certeza de que seu Auxiliar havia deixado para o segundo plano a batalha contra o comunismo ateu, e estava colocando os seus maravilhosos talentos em prol da luta contra as injustiças sociais. Teve a sensação de que as estradas dos dois nunca mais se encontrariam. No entender do Cardeal, a missão da Igreja era cristianizar a sociedade de maneira que o Governo, as organizações sociais e as pessoas se orientassem pelo catolicismo. A transformação social não era missão eclesial, embora a luta contra o comunismo o levasse a apoiar as reformas de base.
O conflito entre o Cardeal Jaime e Dom Helder vem à tona por ocasião da apreensão da cartilha do Movimento de Alfabetização de Base Viver é lutar por determinação do Governador Carlos Lacerda, em fevereiro de 1964. A imprensa fez disso um espetáculo jogando com as oposições entre políticos e eclesiásticos, colocando-os a favor de Lacerda ou do Presidente do MEB, Dom José Távora. Termos como “subversivos”, “comunistas”, “bispos vermelhos” foram muito usados.
Dom José Távora argumentava que as propostas do MEB não se fundamentavam no comunismo, mas nos documentos pontifícios, de Leão XIII a Paulo VI, os quais defendem a vida justa para as populações humanas. Dom Jaime, por sua vez, afirmou que não tinha nada a ver com o silabário do MEB nem com o que se fazia no primeiro andar do Palácio São Joaquim – sede do Movimento e escritório de Dom Helder.
Diante do conflito em torno do apoio ou não ao MEB, o Cardeal chamou Dom Helder e lhe disse: “Filho, estou vendo que a única maneira de seguirmos bons amigos é nos separando. Temos de fazer como São Paulo e São Barnabé. Procuremos, cada um por seu lado, fazer o que seja possível. Teremos de nos separar”.
Aquelas palavras tocaram profundamente a Dom Helder. Deveria deixar a Arquidiocese, os amigos, os colaboradores que estiveram com ele desde 1936. Dom Helder agradeceu a franqueza do Cardeal e disse que uma das coisas que o oprimia era a falta de sinceridade entre os cristãos, sacerdotes e até bispos: a coragem de dizer diretamente é algo admirável. Agradeceu e lhe deu todo o direito de falar com o Papa sobre a transferência. Afirmou que estava disposto a ir para qualquer diocese, sem criar obstáculos.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Teólogo
Algumas fontes
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Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 126-131, 2013.
Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 81-83, 2014.


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