Causos do Dom: Gaudium et Spes:
como Dom Helder se tornou líder da Comissão que elaborou a Constituição Pastoral
Colaboração : Pe. Ivanir Antonio Rampon
Em março de 1964, Dom Helder viajou para Roma a fim de trabalhar na Comissão que elaborava a futura Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Vibrou com a parte introdutória do texto oficial, a ser aprovado ou não, do XVII Esquema. Entre os diversos comentários, diz: “É o anticonstantinismo. É a Igreja servidora e pobre. É o manifesto do pluralismo”.
Porém, quando analisou o primeiro capítulo, observou: “depois da introdução o Esquema se dirige a seminaristas…” e “virou fervorinho… […] A esta altura só os crentes continuarão lendo o Esquema”. Mas como “depois da focalização infeliz do 1.º capítulo, o Esquema sempre melhora”, resolveu dar o placet esperando agir nos anexos, o que de fato fez. A participação de Dom Helder na Comissão foi de fundamental importância para termos hoje o belo e profundo Documento Conciliar.
Dom Helder percebeu que o Esquema tinha adversários fortes: “Havia adversários fortes como Mons. Florit, Arcebispo de Florença (a que me coube combater, amável mas firmemente em Plenário). Muito florentinamente, tentou cobrir de ridículo o Esquema, que ficaria muito bem como artigo de jornal, mas não como texto conciliar”. Não se tratava de defender o texto em si, mas a ideia: “O texto ainda o podemos refundir e aprimorar depois”.
O Dom relatou à Família São Joaquim: “Houve um arrepio na sala, quando me dirigi, em francês, à Presidência perguntando se eu poderia falar em francês. Aprovação geral. Curiosidade e espanto. Comecei dizendo: ‘Nós que estamos no meio do mundo sa[bemos] que as duas únicas Encíclicas que o povo conseguiu entender e teve interesse de ler foram a Mater et Magistra e a Pacem in Terris. Aqui está um aviso importante e grave a ter diante dos olhos para o Concílio inteiro. No caso especial deste Esquema, então, nem se discute. Por que tentar cobrir de ridículo o estilo jornalístico? Se por estilo jornalístico se entende partir dos acontecimentos mais apaixonantes (dos sinais dos tempos), apresentando-os em linguagem de hoje, do homem de hoje para tentar conseguir interesse da enorme maioria que cerca o catolicismo e até o cristianismo por todos os lados […], então, abençoado seja o estilo jornalístico. Este é o tom que nos convém…’ Daí por diante, estava aberto o caminho para a vitória”.
Dom Helder recebeu muito apoios e, no dia seguinte, acabou por assumir a liderança na reunião da Comissão Mista (Teologia e Apostolado Leigo) a fim de melhorar o 1.º capítulo do Esquema XVII. Durante os debates, o Dom conquistou a sala com “uma tirada que veio do mais íntimo da alma”. Disse que estava bem lembrado de que cada um dos membros da Comissão deveria ter diante dos olhos o mundo inteiro, mas “a melhor maneira de chegarmos à visão universal […] é cada um de nós trazer o depoimento de sua região. Permitam que, sem cair no solene, traga a esta sala a voz do Terceiro Mundo”.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Teólogo
Algumas fontes
Camara, Dom Helder. Circulares Conciliares, I – de 13/14 de outubro de 1962 a março de 1964, II – de 12 de setembro a 22/23 de novembro de 1964, III – de 10/11 de setembro a 7/8 de dezembro de 1965, Obras Completas de Dom Helder, Recife: Cepe, 2009.
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 220-222, 2013.



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