Memória em Palavras: Noitadas em São José dos Manguinhos: Dom Helder Camara e o Mundo da Cultura

Memória em Palavras: Noitadas em São José dos Manguinhos: Dom Helder Camara e o Mundo da Cultura

Por Prof. Newton de Andrade Cabral

Igreja das Fronteiras (Recife), 28 de março de 2025

A sintonia com a abertura que Dom Helder cultivava para com todas as pessoas, explicitada desde o discurso de posse na AOR – justifica o fato de ele, ao pensar em promover noitadas, ter cunhado a expressão “a casa do bispo marcando a presença de Cristo no mundo da inteligência e da cultura”.

Ao mesmo tempo, desde a chegada ao Recife, o arcebispo manifestava seu incômodo por ainda ir morar em um palácio:

Como desfazer-nos dos dois tronos?… Para que Museu encaminhá-los? Coitados não têm culpa, mas são símbolos de um passado que desejamos morto e sepultado…

Como desfazer-nos das cadeiras nobres?… Reconheço que são belas. Dom José lembra duas dificuldades graves: para onde mandá-las e como substituí-las. Pondera que o desejo de simplicidade talvez acabe importando em despesa maior.

Como desfazer-nos dos dois tapetes?… Pondera Dom José que eles escondem um soalho esburacado e feio… (…). Como aproveitar melhor tanta sala vazia? Dom José lembra que eu preciso das salas para receber Comissões… Dessa maneira o Santo Padre jamais se livrará do Vaticano (…).

Receber?… Por que não receber na Salinha ligada à sala de jantar? Incômodo quando se tratar de hora de refeições? Mas a casa é ou não do a do Pai e Pai de todos, sem exceção? Enlouqueci?… Quem me dera, se se tratasse da loucura que tomou conta de Francisco ou de uma loucura chamada de Cruz!?…

Noitadas? Por que não as promover na parta sobradada?” (25ª Circular Conciliar – 03/04.10.1964).

Esses incômodos acirraram-se depois que ele foi um dos signatários do Pacto das Catacumbas (Roma, 16 de novembro de 1964).

Em meio às suas múltiplas atividades, retornou à preocupação sobre como utilizar a residência palaciana:

Está sendo recebida, com emoção, a notícia de que os jardins do Palácio vão ser abertos à criançada. De dia, o Palácio pertencerá: à inocência (…) [e] à Senhora Pobreza, através do Banco da Providência; de noite à inteligência, reflexo da Luz divina. (13ª Circular Interconciliar – 07/08.05.1964).

Primeira noitada: 16 de maio de 1964. Comentários de DHC:

A Vigília foi marcada pelo início das Noitadas. Como agradeci a Deus o que os meus olhos viam! A Casa do Pai aberta à inteligência, imagem viva do Senhor!

Em torno de Newton Sucupira, um grupo privilegiado, num milagre de amor…

(…). O debate que se prolongou até meia-noite (começamos às 8 e meia) deu medida não só do valor excepcional do grupo, mas do interesse que a noitada despertou.

As reuniões ordinárias do grupo de filosofia serão de mês em mês (havendo comunicações filosóficas a transmitir, qualquer um pode pedir reunião extraordinária). Próximo encontro previsto: 17 de junho, a cargo do Lourival [Vilanova] que abordará um tema husserliano. Em julho, se Deus quiser, o Gláucio [Veiga] estudará conosco a história em Hegel e Marx. Em agosto (se não houver reunião extraordinária), o Newton quer falar sobre Heidegger (20ª Circular Interconciliar – 16/17.05.1964).

Nomes de alguns convidados que se fizeram presentes nas Noitadas ou foram cogitados:

Afonso Felipe Gregory (sacerdote gaúcho); Aimon-Marie Roguet (dominicano francês); Alfred Ancel (bispo de Lyon); Alfredo Rocha Fonseca (sacerdote anglicano); Almeri Bezerra de Melo (padre da Arquidiocese de

Olinda e Recife – AOR); Ariano Suassuna; Carlo Borghi (sacerdote italiano e físico nuclear); Carlo Colombo (bispo auxiliar de Milão); Carlos do Rego Maciel (pedagogo); Carlos Reis (engenheiro agrônomo, cantor e ator); Celina Holanda Cavalcanti (poetisa); César Leal (poeta e crítico literário); Daniel Lima (padre AOR e escritor); Débora Brennand (poetisa); Fernando Mota (economista); Francisco Brennand (artista plástico e ceramista); Gadiel Perruci (professor); Gastão de Holanda; Geraldo Cursino (jesuíta, ex- reitor da Unicap); Gláucio Veiga (jurista); Hermilo Borba Filho (escritor e teatrólogo); Jaime Diniz (músico); João Alexandre Barbosa (professor); João Cabral de Melo Neto; José Comblin; Lourival Beuk (pastor metodista); Lourival Vilanova (jurista); Luís Delgado (jurista); Marcos Vinícius Vilaça; Maria Antonia MacDowell (professora); Mauro Mota (poeta e jornalista); Nélson Saldanha (filósofo e jurista); Newton Sucupira (filósofo); Orlando da Costa Ferreira (editor); Paulo do Rego Maciel; Renato Carneiro Campos (professor); René Ribeiro (médico e antropólogo); Romeu Padilha; Sebastião Uchoa Leite (escritor); Tomás Seixas (poeta); Torquato Santos (pastor presbiteriano); Ubirajara Pereira (pastor batista), Zaqueu Moreira (pastor batista); Zeferino Rocha (padre AOR); Zélia Barbosa (cantora); Zildo Rocha (padre AOR)…

Áreas/temas abordados nas Noitadas ou que foram cogitados e noitadas com grupos específicos:

1. alfabetização funcional; 2. artes plásticas; 3. ciências; 4. com descrentes;

5. com jovens; 6. com pobres; 7. com trabalhadores; 8. desenvolvimento e

humanismo; 9. ecumenismo; 10. estudos conciliares; 11. Esquema XIII; 12.

filosofia; 13. literatura; 14. pedagogia; 15. restrição de natalidade; 16.

técnica; 17. teologia; 18. sociologia.

Foram anotadas, das Cartas Circulares, 115 referências de Dom Helder às noitadas (que são também citadas na introdução de alguns tomos). Filosofia e Teologia foram as áreas/temas mais recorrentes, sucedidas por Literatura.

À medida que elas aconteciam, conhecendo as vicissitudes humanas e suas idiossincrasias, vez por outra Dom Helder justificava a realização das noitadas: “mesmo no Nordeste subdesenvolvido (de certo modo especialmente aqui) não estávamos perdendo tempo. Seria um erro se eu só cuidasse das Noitadas. Seria uma falha se elas não fossem montadas.” (20ª Circular Interconciliar – 16.17/05.1964). De outra feita, escreveu: “perda

de tempo? De modo algum. As Noitadas são importantes como as Semanas Litúrgicas ou o Banco da Providência” (24ª e 25ª Circulares Interconciliares – 22/23 e 23/24.05.1964).

Noutra ocasião (40ª Circular Interconciliar – 26/27.06.1964), alongou-se:

Ai do país que deixa de ter poetas ou onde a poesia deixa de ser amada, entendida, discutida. Alegra-me ver um grupo sério, discutindo problemas limpos, sedentos de beleza. Quando se nota, o relógio está batendo meia- noite. E não se para nem mesmo na hora do sorvete. Todos se sentem em casa. Não é a casa do Bispo (isto é, do Pai, do Irmão…). Não é a casa do Bispinho?…

Havia razão de ser para autodefesas recorrentes. Uma filósofa, católica, professora da UFPE (Maria do Carmo Tavares de Miranda), em pequena publicação criticou as noitadas, entre outas questões, por causa da “corrente avançada da Igreja”, dos temas estudados ou de dança na noitada com os jovens.

O comentário de Dom Helder foi contundente (121ª Circular Pós-conciliar – 21/22.06.1966):

Como todo o esforço de construir, toda a trabalheira para dar testemunho cristão, todo o sacrifício para viver em plenitude o Evangelho não encontram eco, não chegam por aí… Chega o comentário radical e apaixonado de quem jamais se dignou aproximar-se de mim para fazer- me a mais leve consulta ou transmitir-me o mais simples dos avisos. Quem se queixa tanto de falta de disciplina, sendo católica, bem poderia dar o exemplo de pedir imprimatur para o seu opúsculo…

A documentação pesquisada – cartas-circulares (não fizemos pesquisa em hemerotecas, embora saibamos que, esporadicamente, as noitadas eram noticiadas em jornais locais – não permite quantificar as noitadas realizadas, sequer fazer uma estimativa. O último registro delas (que escassearam nos últimos volumes publicados, é de uma com um grupo de técnicos, realizada na noite de 18 de março de 1969.

A que atribuímos a finalização daqueles encontros?

  1. à exacerbação do difícil contexto político nacional, a exemplo do AI-5 (dez. 1968), cujas medidas se fizeram rapidamente sentir na censura imposta a determinadas lideranças então atuantes no país;
  2. ao fato de não ter-se concretizado o desejo de Dom Helder de aqueles encontros resultarem em publicações, como fez alusão em várias circulares. Ele sonhou com a criação do que chamaria “Cadernos do Recife”, o que também via como forma de atenuar as dificuldades financeiras então enfrentadas pela Tipografia da Arquidiocese;
  3. à predominância, em algumas noitadas, de membros do clero: “a Noitada de Teologia (ontem, 18) encheu-me as medidas. Falha real a sanar no próximo encontro (…) foi a ausência de leigos. O Pe. Reitor [Marcelo Carvalheira] só trouxe batinas, embora de boa categoria” (32ª Circular Interconciliar – 18/19.06.1964);
  4. à tentativa de mudar o local de realização das noitadas para o Seminário Regional do Nordeste II (Camaragibe, na RMR), para dar-lhe visibilidade… Sendo um local de difícil acesso, após algumas tentativas retornou-se ao Palácio de São José dos Manguinhos;
  5. às misturas de áreas e temas abordados ou mesmo cogitados; se elas implicaram ampliação em relação aos objetivos inicialmente postos, poderiam gerar alguma confusão/incompreensão. Dom Helder chegou a cobrar a si mesmo fidelidade à missão específica das noitadas: novo ordenamento ao Palácio e à forma de utilizá-lo, e estudos para leigos e clero da AOR (inclusive para os dois “bispinhos”);
  6. à mudança de residência do arcebispo, que desde a sua chegada ao Recife, almejava habitar um local que fosse coerente com os valores em que acreditava, sobre os quais escrevia e que disseminava em suas pregações. Escolheu residir nos fundos da Igreja das Fronteiras (no Bairro da Boa Vista, para onde se mudou em 14 de março de 1968.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Dos múltiplos significados das noitadas destacamos:

  1. a justaposição de papéis (quem organizava as noitadas era também o arcebispo de Olinda e Recife), o que implicava poder estar embutida a existência de preocupações pastorais, pois as discussões travadas podiam ajudar nos planos de pastoral e vice-versa;
  • a abertura de Dom Helder que ampliava temas e acatava sugestões, aglutinando pessoas de outras religiões e descrentes, mulheres e pessoas que não eram politicamente consideradas de esquerda, levando-as para dentro do Palácio;
    • a sensibilidade para com o mundo da cultura, particularmente das diversas manifestações das artes: “se eu perder o contato com os artistas, não serei mais eu”;
    • o inusitado da sua iniciativa e a revelação de um viés de um homem de quem são bastante conhecidas as facetas de membro da hierarquia católica, promotor da paz e da justiça, ativista dos direitos humanos, místico e profeta. Poucos, porém, temos conhecimento do quão ARTISTA ele era.

Dom Helder não titubeava em sua convicção de que “andar às voltas com o belo é andar às voltas com Deus”.

REFERÊNCIA

CABRAL, Newton Darwin de Andrade; MOURA, Carlos André Silva de. “A casa do bispo marcando a presença de Cristo no mundo da inteligência e da cultura”: as noitadas no solar de São José dos Manguinhos. In: CABRAL, Newton Darwin de Andrade; PINA NETA, Lucy (orgs.). “Andar às voltas com o belo é andar às voltas com Deus”: a relação de Dom Helder Camara com as artes. Recife: Bagaço, 2018. p. 87-114.

Newton D. de Andrade Cabral

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