Causos do Dom: Pe. Cícero ensina Helder a não guardar ódio no coração
No final do ano escolástico de 1927, Monsenhor Tabosa Braga, Vigário Geral de Fortaleza, pediu ao seminarista Helder que dedicasse as férias visitando as paróquias, a fim de conseguir assinaturas para o jornal da diocese, O Nordeste.
Em Juazeiro, apesar de contínuas insistências do pároco Manuel Macedo, ninguém assinou o jornal. O pároco, então, sugeriu ao seminarista que fosse pedir apoio ao famoso e discutido Pe. Cícero. Dois dias depois, os dois se encontraram e Helder lhe disse:
– “Monsenhor Tabosa Braga me pediu… eu vim a Juazeiro, estou percorrendo todo o Ceará, mas aqui, o senhor sabe, sem o seu apoio não vai, não é?”.
O padre, com 83 anos, lhe respondeu: “Meu filho, se eu fosse agir humanamente, era para eu nem querer ouvir o nome desse jornal. Esse jornal tem sido ingrato comigo. Nunca mandou um repórter aqui. Faz afirmações que não são verdadeiras, e nunca me deu o direito de resposta. Mas eu devo provar a você, hoje você é um jovem seminarista, amanhã será um padre, que no coração de um cristão, e sobretudo de um padre, não cabe uma gota de ódio”.
Helder muito se emocionou e guardou essas palavras do velho sacerdote no seu coração. O Pe. Cícero assinou, sem ler a carta de recomendação ao jornal… No outro dia, choveram assinaturas.
Na década de 70 será a vez de Dom Helder passar, em escala maior, por situação semelhante ao do Pe. Cícero. Será difamado, execrado e silenciado pela ditadura militar. Dom Helder perdoou a todos e dizia, inclusive, que tinha recebido de Deus duas graças especiais sendo uma delas a de não guardar um “travo de ódio no coração”. Assim, ele viveu exemplarmente o ensinamento recebido do Pe. Cícero: no coração de um cristão e, sobretudo, de um padre, não deve existir uma gota de ódio.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Fontes
Ivanir Antonio Rampon, O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 20, 2013.
Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Editora Contexto, p. 63, 2008.


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