DOM HELDER: UMA PAIXÃO QUE CRESCE A CADA DIA

Júnior Aguiar é jornalista, ator, roteirista, diretor e professor de teatro. Faz parte do coletivo Grão Comum, criador da Trilogia Vermelha, onde com muita criatividade, contam a vida de Glauber Rocha, Paulo Freire e Dom Helder Camara.

Criador, roteirista e diretor do Auto das Fronteiras – um Natal com Dom Helder, ele bateu um papo com o nosso blog, falando sobre sua paixão por Dom Helder e sobre a sua mais recente criação.

BATE-PAPO COM JÚNIOR AGUIAR

Blog do IDHeC– Júnior Como surgiu a ideia de um Auto de Natal na igreja das Fronteiras?

Júnior Aguiar– Eu já estava imerso na pesquisa da vida de D. Helder Camara desde a criação da Trilogia Vermelha, da qual foi criado o espetáculo pro(FÉ)ta – o bispo do povo. E o Dom continuou a me inspirar, sua vida resplandecente e a energia mística de suas palavras eternizadas nos textos deixados por ele, o que revela também a magnitude do poeta que ele é para a literatura brasileira, conduziram-me a uma visão de criar um novo AUTO DE NATAL para a cidade do Recife, honrando essa riqueza de fontes primordiais de latentes esperanças. Um auto para celebrar o nascimento do menino Jesus, numa prece ao Deus que nos constitui e anima, recontando tudo o que significa falar e viver no período do Natal, através do que D. Helder pensou e escreveu sobre o que para ele, e para cada um de nós, significa esta data história, na incansável luta por um mundo em que o amor de Cristo se preserve no coração da humanidade.

E me inspirou profundamente e encheu meu coração de alegria foi imaginar a dimensão teatral do quanto seria lindo o espetáculo do novo Auto de Natal ser na secular Igreja de Nossa Senhora da Assunção Das Fronteiras, a casa eterna de D. Helder, por toda a beleza e energia e representatividade que a constitui como um verdadeiro templo, lugar de poder, um espaço sagrado; e assim, com todo o respeito e cuidado, ocupa-lo com o poder do Teatro ritual-cerimonial do Coletivo Grão Comum e dos convidados de honra que foram chamados a participar deste espetáculo/cerimônia, com o primor da beleza e da simplicidade que a arte pode atingir quando se transforma em verdadeira comunhão. 

Blog do IDHeC– Quem é o autor do o roteiro? 

Júnior Aguiar– A pesquisa e a montagem do roteiro final foi um trabalho pessoal. Sou jornalista e dramaturgo e dedico minhas criações literárias ao conjunto de referências, fontes, arquivos, insights, intuições que os processos criativos abrem, inspiram, indagam, ensinam, transcendem e nos fazem ser co-criadores de tudo o que há nesse lindo mundo e na arte. Há também criações particulares de todos que participam desta pesquisa e criação. 

Agradeço em especial ao Instituto D. Helder Camara e o Centro de Documentação – CEDOHC e Memorial Dom Helder Camara, pelo acolhimento e confiança neste projeto de pesquisa e criação do Coletivo Grão Comum. 

Blog do IDHeC – Você poderia falar um pouco sobre o Auto das Fronteiras sem estragar a surpresa da apresentação?

Júnior Aguiar – O espetáculo celebrará o nascimento de Jesus Cristo e, de forma ecumênica e buscando diálogos inter-religiosos com as religiões de matrizes indígenas e africanas, consagrará o AMOR do DEUS encarnado em duas noites de festa e celebração do teatro ritualístico-cerimonial. O presente de fim de ano de D. Helder para todos nós é abrir sua casa para a emanação deste auto que irá reunir José e Maria com Jesus aos braços, os Pastores, os Sábios do Oriente, os Anjos, Nossa Senhora de Assunção e a presença especial de Jesus, “Filho do Altíssimo, e Senhor Deus que lhe deu o trono de Davi, seu pai; Ele que reinará na casa de Jacó para sempre, e cujo reinado não terá fim”.

A história começa com a projeção de imagens da criação do mundo e dos seres vivos, dos astros e estrelas em órbitas universais, e contempla a entrada de D. Helder a bailar dentro desta sinfonia, dançando em oração ao Pai e declamando poemas que celebram “o mistério da criação fazendo de cada dia um cântico das criaturas”, celebrando a Comunhão “que dura o dia inteiro, em contato íntimo e profundo com todas as criaturas humanas”, buscando solidarizar-se com todas as barreiras de língua, de raça, de crença e de ideologia, pedindo para que possamos abrir o coração e lembrando que “o canto da terra que escolheste para teu filho nascer… é assim como o Nordeste, imagem da Palestina”. O espetáculo indaga através das palavras de D. Helder: “Como está Cristo dentro de cada um de nós? Largado? Abandonado? Esquecido? Invisível? Quem está se preparando para o Natal?\”.
Blog do IDHeC– Quem participará das apresentações?

Júnior Aguiar– Eu atuo como D. Helder. O ator e meu parceiro do Coletivo Grão Comum, Asaías Rodrigues – o Zaza – emana o Jesus/adulto. Tenho a honra de trabalhar com a grande atriz Augusta Ferraz representando Nossa Senhora da Assunção Das Fonteiras, a professora e mãe negra de três lindas crianças – incluindo Guarani que será o Messias – Rebeca Silva encarnando Maria, o pai negro, rapper e trabalhador Jeferson Silva  encarnando o José, a cantora Yane Cordeiro com sua voz divina interpretando a doçura dos Anjos a trazer mensagens proféticas, o terapeuta holístico do método Tacai Daniel Fialho representando os Pastores Andinos, o Monge Marcelo Barros representando a Igreja Católica/Cristianismo, o Xamã Fulgi-ô Megaron Matos  representando a Nação Fulni-ô/Jurema, e o aborixá Alexandre L’ómi L’ódò representando o Culto Nagô/Candomblé. 

Blog do IDHeC– Qual o significado de Dom Helder em sua vida?

Júnior Aguiar– Preciso até suspirar para responder. Eu fui uma pessoa que mergulhou na vida e na existência deste homem Santo e certamente uma das pessoas mais lindas que a nossa humanidade já teve. D. Helder é tão grande, tão vasto, tão rico e tão pleno de Deus que sua vida é para nós um farol de luz a nos indicar onde encontrar Deus. E nele, o que Deus representa de Amor, Justiça, Humildade, Sabedoria, e Criação a nos fazer crer, e pregar e com fé tentar transformar o mundo num lugar mais próximo do céu. Um verdadeiro Reino de Deus e, de fato, reconhecer que podemos ser irmãos e preservar a vida em tudo que é sagrado no caminhar desta existência que nos atravessa. D. Helder é uma companhia, um santo homem que eu tenho como amigo e confidente, um poeta que me chama para abrir livros e poemas arrebatadores de epifanias, metafísicas ideias, santas orações e muita, muita crônica social, testemunhos eternizados do seu olhar sobre o mistério dos cosmos, das realidades sociais inaceitáveis e que nos atravessam e por elas somos atravessados. Tudo nele é inspirador e me faz bem e me faz crer que algumas pessoas são para sempre estrelas de luz como foi a estrela de Belém a indicar o lugar sagrado onde Deus nasce todos os dias. Eu agradeço a Deus pela existência dele nesta terra e sua história de vida foi herdada na luta dos nossos corações. E gratidão por tudo.

Blog do IDHeC – Nós que agradecemos a você a sua dedicação, o seu carinho e as suas interpretações de Dom Helder. E agora vamos lembrar a todos e todas as datas das duas apresentações do Auto das Fronteiras – um Natal com Dom Helder.

Datas – 21 e 22 de dezembro, sábado e domingo antes do Natal.
Hora – 18h
Local – Igreja das Fronteiras, rua Henrique Dias, s/n, Boa Vista
Informações pelo telefone: (81) 3421-1076



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One response to “DOM HELDER: UMA PAIXÃO QUE CRESCE A CADA DIA”

  1. Avatar de Sirocco

    Muito boa a entrevista. Que obra! Bem a altura do nosso Dom. Júnior é um artista do povo de coração gigante e sua arte está profundamente conectada com nosso tempo. Serao noites especiais!

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