"AMAI-VOS UNS AOS OUTROS"

“Quando dou comida aos pobres me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres me chamam de comunista”.

Essas palavras de Dom Helder definem bem a época em que ajudar ou questionar as causas da pobreza era, praticamente, assumir-se como subversivo e comunista, embora, fossem, simplesmente, pessoas vivendo o evangelho na prática do dia a dia.
Foi assim com Dom Helder que era conhecido como o “bispo vermelho” por sempre se colocar ao lado dos despossuídos, dos excluídos da sociedade, dos sem vez e sem voz.
E foi assim que, há 42 anos, dois religiosos norte-americanos, o missionário menonita em Recife, Thomas Capuano e o monge Pe. Lawrence Rosenbaugh, que exerciam sua ação pastoral junto aos mendigos da cidade, foram presos e sofream maus tratos na prisão. Soltos quatro dias depois, o missionário foi obrigado a sair do país porquanto o Governo brasileiro negara a renovação do seu visto de permanência.

Uma postagem no dia 1º no Facebook do Arquivo Público nos conta um pouco do acontecido: “Há exatamente 42 anos Pernambuco foi manchete da imprensa internacional. A vinda ao Recife da então primeira dama americana Rosalynn Carter foi a plataforma que deu visibilidade praticamente global ao que deveria ter sido um rotineiro caso de prisão e tortura numa delegacia de polícia. A diferença – brutal – é que os presos seviciados na delegacia de Roubos e Furtos entre 15 e 18 de maio de 1977 eram dois cidadãos americanos, mais precisamente, dois religiosos, um monge católico – Lawrence R. Rosenbaugh – e um missionário protestante (menonita) – Thomas Michael Capuano. O consulado americano no Recife, a embaixada em Brasília e o próprio Departamento de Estado pressionaram fortemente o governo brasileiro, tornando a visita do casal Carter um incômodo para o general-presidente de plantão, Ernesto Geisel, e o governador do estado, Moura Cavalcanti. Apoiados por Dom Hélder Câmara, Rosenbaugh e Capuano vivenciavam uma radical experiência de solidariedade humana. Eles viviam em situação de miséria absoluta, a mesma das centenas de famílias de afogados e da Imbiribeira cuja fome cotidiana tentavam minorar com a sopa que preparavam com restos apanhados no chão da feira de Afogados e transportados pelas ruas numa carroça que eles mesmos puxavam. “Vocês devem ser comunistas pra fazer isso”, disse um dos policiais que os prenderam nas imediações da ponte Motocolombó. A barbárie que a censura silenciava na imprensa brasileira – o Diário de Pernambuco chamou de “roteiro sentimental” a jornada de revolta e denúncia dos Carter no Brasil – agora ecoava com estridência na imprensa internacional. De repente, o mundo sabia: a tortura e outras formas de violência praticada por agentes do estado são rotina no Brasil. Rosenbaugh, que deixou o Brasil nos anos 1980, foi assassinado a tiros em 18 de maio de 2009 na Guatemala onde realizava trabalho semelhante ao que fazia no Recife”.

Na frase retirada do meio da nota – “Apoiados por Dom Helder Camara, Rosenbaugh e Capuano vivenciavam uma radical experiência de solidariedade humana” – observamos a discreta menção a Dom Helder mas que, apesar de tímida, mostra a força de um profeta que entendia em toda a sua plenitude qual é o  caminho que o evangelho mostra para os cristãos seguirem: aquele que os coloquem ao lado dos pequeninos.

Em 1968, em sua 441ª Circular Após-Concílio escrita em Recife, na madrugada do dia 27 para o dia 28 de outubro  Dom Helder escreveu para a sua querida Família Mecejanense:

“Vigília da Dedicação da Catedral

Notícias várias, de valor diverso

• que houve de exato sobre a Casa das Fronteiras? O muro da igreja apareceu com os dois dizeres que vocês conhecem: Helder é subversivo e SAC é o poder. O nosso muro amanheceu lindamente pintado de vermelho: parecia sangue! Os jornais (especialmente o dos Diários Associados) fizeram o alarme. São responsáveis, inclusive, pela história da Casa metralhada.

Dizem que houve tiros para o ar e há uns dois ou três sinais de bala, na parede. Graças a Deus, os nossos deram o mínimo de atenção. Há pessoas capazes de levantar o alarme para dizer depois que tudo foi inventado por nós, como publicidade”.

Em 30 de julho de 1977 o então secretário Geral da CNBB, D. Ivo Lorscheiter, informava à imprensa ter recebido “de fontes fidedignas de Brasília e Goiás um alerta de que seria iminente a expulsão de D. Pedro Casaldáliga”.

Dom Pedro não chegou a ser expulso, mas muitos outros padres estrangeiros que trabalhavam junto aos pobres, aos camponeses, que defendiam os direitos dos oprimidos, tiveram que deixar o País, como punição pelo trabalho que faziam junto aos seus rebanhos.

No começo de julho do mesmo ano o Ministro da Justiça determinou a instauração de inquérito, pela Superintendência da Polícia Federal de Pernambuco, para efeito de expulsão do Pe. Romano Zufferey, suíço, trabalhador no Nordeste há mais de dez anos como assistente eclesiástico da Ação Católica Operária (ACO).

De acordo com os dados da Fundação Perseu Abramo a lista de perseguições, prisões e expulsões de religiosos e religiosas é extensa. O ocorrido em 1977 não foram os primeiros casos de ameaça ou expulsão desde o ano de 1964 e não seriam os últimos, fazendo parte de uma série que incluiu a prisão do Pe. Francisco Lage, antigo pároco na Igreja da Floresta em Belo Horizonte (MG), a expulsão65 do padre francês Francisco Jentel

O Pe. José Comblin, belga, professor no Instituto Teológico do Recife (PE), conhecido por sua pregação em favor dos oprimidos, ao regressar da Europa, em 24 de março de 1972, foi impedido pela Polícia Federal de desembarcar no Brasil e mandado de volta.

A identificação desses religiosos e religiosas com os oprimidos foi determinada por sua aceitação das exigências do Evangelho.

Eles com toda certeza, assim como o próprio Dom Helder, sentiam-se confortados nas BemAventuranças: \”Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós\” (Mt 5,11). \”Antes importa obedecer a Deus do que aos homens\” (At 5,29).

Buscaram inspiração para a sua ação em Mateus 25, 35, 36, 40: \”Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedasses; estava nu e me vestisses; enfermo e me visitasses; preso e fostes ver-me. Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes\”

Também no Antigo Testamento buscavam o Norte para sua caminhada quando liam em Isaias – 58,6: \”Porventura não é esta a prática religiosa que escolhi, que rompas as correntes da iniquidade, desfaças as amarras da servidão, libertes os oprimidos e despedaces todo jugo?\” Ou em 32,17: “O fruto da justiça será paz; o resultado da justiça será tranquilidade e confiança para sempre”.

E como não terem buscado inspiração no Magnificat quando em Lucas 1, 51-53 – Maria saudou Isabel e seu filho João ainda no ventre dizendo: “Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os que têm planos orgulhosos no coração. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos, e mandou embora os ricos de mãos vazias”.

Em seu Testamento Jesus deixou muito claro o caminho a seguir para dar continuidade à construção de seu Reino, quando em Mateus 15,40 ele diz:  Em verdade eu vos digo: o que fizestes a um dos menores destes meus irmãos a mim o fizestes”.

Se depois de ler todas essas passagens bíblicas, todas as recomendações de Jesus no novo Testamento, alguém que se propõe a ser cristão, a ser cristã, ainda tiver dúvida do que fazer para ser um verdadeiro discípulo Dele, em João 15,12 Ele faz um resumo de tudo que falou e fez em sua passagem pela Terra: “ E o meu mandamento é este: que se amem uns aos outros assim como eu vos amei”.

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