
Quinta-feira, 10.7.1980
Meus queridos amigos
É extraordinário que o Santo Padre João Paulo II, depois de uma viagem pra lá de cansativa, tenha feito questão de ir a Manaus. Claro que não se trata de simples curiosidade de ver a Amazônia, a sua floresta, e suas aves e suas flores. O Papa que, em cada cidade quis ir ao encontro de um problema típico da área, na Amazônia quis ter contato com o que resta dos nossos índios.
O índio tem, em face da natureza, uma posição muito diferente da nossa. Nós estamos convictos de que temos o direito e, praticamente, o dever de dominar a natureza e completar a criação. É terrível o que temos feito na linha de dominar a natureza. Nós a esmagamos, a destruímos e levamos à condições incríveis a poluição.
É de cortar o coração o balanço das florestas destruídas, das riquezas minerais dilapidadas, dos rios, lagos e mares poluídos a ponto de ser impossível ambiente para peixes!
O índio em lugar de dominar a natureza e destruí-la prefere conviver com ela. Claro que ele come frutas e animais, mas tudo se passa sem desperdício, sem esbanjamento, na medida exata das necessidades de alimentação. Amando a natureza, gostando de conviver com ela e tendo, de outra parte, necessidade de liberdade, o índio não se contenta e não se pode contentar, como nós nos contentamos, com uma casa pequena e, quando muito, um pequeno terreno. O índio precisa de espaço para correr, para respirar, para sentir-se livre, para irmanar-se com a natureza. Claro que nem mesmo os terrenos chamados reduções — reservados para eles — os índios vão poder guardar. Hoje qualquer pedaço de terra, vale mais do que ouro — vale sangue.
Quem tem seus projetos de crescimento, por que irá admitir que os índios guardem um espaço relativamente amplo e relativamente não aproveitável, segundo nossa visão de progresso? E aí estão, sempre mais numerosos e sangrentos, os choques com os índios. Ninguém se lembra de que quando chegaram aqui, com Pedro Álvares Cabral, os chamados descobridores, o Brasil estava mais que descoberto.
Comparados os índios de hoje com os que haviam na chamada descoberta, é mais do que claro que eles estão sendo extintos. Compreendo, Santo Padre, o vosso desejo de ir a Manaus e de falar sobre os índios. Sois pastor universal; tendes que pensar em todos os filhos, mas, sobretudo, nos mais necessitados e sofredores. Acertastes de cheio; aqui como em toda parte, se os índios não forem socorridos com inteligência, amor e espírito de fé, acabarão sendo extintos.

Deixe uma resposta