Causos do Dom: Coração de Dom Helder bateu forte na primeira audiência de Paulo VI com os Bispos do Brasil: “Com ser indiferente a um espetáculo como o das favelas?” indagou o Papa
Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon
Dom Helder, muito emocionado, esperava a primeira audiência da delegação brasileira com o novo Papa, Paulo VI: “Estou ansioso para rever de perto o querido Montini, para ver a quantas anda o banho de João XXIII…”.
Posteriormente, ele relatou que a audiência com o Santo Padre, em 22 de outubro de 1963, “foi ‘carinhosíssima’. Os 176 Bispos brasileiros compunham um quadro impressionante. Fiquei ao lado do Senhor Cardeal [Dom Jaime de Barros Camara] (menos na hora da fotografia, porque os Bispos viram seminaristas quando se trata de tirar retratos com o Papa)”.
O Papa disse palavras que fizeram o coração de Helder bater mais forte: “lembrou a necessidade de o Padre ficar no meio do povo, participando de seus problemas, sofrendo e lutando com ele. “Como ser indiferente a um espetáculo como o das Favelas?… Como fechar os olhos à injustiça social?…”.
Dom Helder era chamado de “Bispo das Favelas” porque estava no meio do povo, conduzindo projetos de envergadura como a Cruzada de São Sebastião e a Feira da Providência. A Cruzada fora visitada, em junho de 1960, pelo Arcebispo de Milão, João Batista Montini. Na ocasião, Dom Helder mostrou-lhe a favela da Praia do Pinto com os edifícios construídos pela Cruzada de São Sebastião.
Dom Helder escreveu à Família [Espiritual] que o discurso de Paulo VI foi simples: “Mais conversa do que discurso, mas no qual Montini surgiu banhado de João XXIII. Em certo momento, encontrou meio de lembrar o convite que lhe fora feito por Mons. [Helder] Camara, para que ele pregasse o Retiro aos Bispos do Brasil. Comentou: “Era troppo per me”.
O Papa “tinha em mãos três placas (trabalho de um artista de Milão, representando o Cristo e o Colégio dos Apóstolos entre os quais se acha o Papa João). Deu uma ao senhor Cardeal [Jaime de Barros Camara]; outra ao Secretário da Conferência [Dom Helder Camara] (“e ele me procurou para fazer a entrega”); a terceira deu a Dom Newton [primeiro arcebispo de Brasília], que deixou com ele um álbum belíssimo sobre Brasília.
A amizade espiritual de Paulo VI e Dom Helder Camara, iniciada no início da década de 50, crescerá na década de 60 e 70. Uma análise desta amizade é apresentada no livro “Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual”. Em sete capítulos, o livro apresenta: 1) O início da amizade espiritual; 2) Amizade com amplos horizontes; 3) Amizade aggiornada; 4) Amizade guiada pela Providência; 5) Amizade provada; 6) Amizade sintonizada; 7) Amizade confirmada e eterna.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Teólogo
Algumas fontes
Camara, Dom Helder. Circulares Conciliares, I – de 13/14 de outubro de 1962 a março de 1964, II – de 12 de setembro a 22/23 de novembro de 1964, III – de 10/11 de setembro a 7/8 de dezembro de 1965, Obras Completas de Dom Helder, Recife: Cepe, 2009.
Camara, Dom Helder. Circulares Interconciliares, I – de 11/12 de abril a 9/10 de setembro de 1964, II – de 23/24 de novembro de 1964 a 17/18 de abril de 1965, III – de 18/19 de abril a 31 de agosto/1 de setembro de 1965, Obras Completas de Dom Helder, Recife: Cepe, 2009.
Piletti, Nelson e Praxedes, Walter. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Editora Contexto, p. 247-248, 2008.
Rampon, Ivanir Antonio. Francisco e Helder – Sintonia Espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 119-120, 2016.
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 215-216, 2013.
Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, 2014.


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