Causos do Dom: Vaticano II: Dom Larraín procura Dom Helder e lhe transmite preocupações em relação ao método de escolha dos integrantes das Comissões

Causos do Dom: Vaticano II: Dom Larraín procura Dom Helder e lhe transmite preocupações em relação ao método de escolha dos integrantes das Comissões

Colaboração: Pe, Ivanir Antonio Rampon

Chegando a Roma para participar do Concílio Vaticano II, Dom Helder foi logo procurado por Dom Larraín que lhe transmitiu graves preocupações relativas aos métodos de trabalho determinados pela Secretaria Geral do Concílio. O Bispo chileno havia descoberto que, logo após a Solenidade de Abertura na Basílica de São Pedro, o Secretário Geral do Concílio, Dom Pericle Felice, diria que, atendendo ao desejo do Papa João XXIII, seriam constituídas 10 Comissões de Trabalho. Para integrá-las, os Padres Conciliares deveriam eleger, para cada uma, 16 Bispos, sendo cada qual acrescida de 8 Padres Conciliares de livre escolha do Papa. Ou seja, seria necessário eleger 160 Bispos dentre os 3.000 reunidos na Basílica. Mas Dom Larraín havia captado que Dom Felice argumentaria que seria desejável que as Comissões contassem com representantes do maior número possível dos países. Porém, considerando que os Padres só conheciam o Episcopado de seus próprios países, pediria ao plenário um voto de confiança: que votasse imediatamente nos nomes das listas preparadas anteriormente pela Secretaria Geral, as quais seriam distribuídas à assembleia.

Dom Larraín comentou a Dom Helder que esse procedimento poderia ferir a representatividade dos Bispos e impedir a fiel expressão da vontade deles. Dada a gravidade da situação, eles buscaram um meio de evitar o primeiro ataque à colegialidade episcopal. Estavam de acordo que somente Cardeais teriam possibilidades de mudar o rumo preestabelecido pelo Secretário Geral do Concílio. Fizeram, então, uma lista com o nome de dez Cardeais com os quais poderiam contar e foram pedir apoios dos bispos franceses.

No sábado, dia 13, quando Dom Felice começou a comunicar que seriam criadas as Comissões de Trabalho e a explicitar o procedimento a ser seguido para as eleições, já havia, no alto das escadas que dividiam as arquibancadas em setores de 100 Bispos cada, seminaristas que tinham em mãos as fichas de votação e as listas de candidatos escolhidos. Quando o Secretário Geral do Concílio terminou de falar, o velho Cardeal Liénart, de Lille, França, levantou-se e, dirigindo-se a Dom Tisserand que presidia a Assembleia, pediu a palavra, a qual lhe foi negada. “Je la prends quand même!” retorquiu Liénart sob vigorosos aplausos. Liénart esclareceu, então, que compreendera a sugestão do Secretário Geral, mas não podia aceitá-la.

O Cardeal Tisserand argumentou que nenhum dos presentes tinha experiência de Concílios, que os regulamentos deveriam ser criados pelos próprios Padres Conciliares, e sugeriu que se proibissem aplausos e vaias: suas palavras foram recebidas por estrondoso aplauso, o que significava a desaprovação do plenário.

Após a intervenção do Cardeal Liénart, seguiram-se seis intervenções de Cardeais no mesmo sentido. Na lista dos dez estava Montini, mas este não precisou pronunciar-se. O Secretário Geral voltou à tribuna: “Nós aqui estamos cumprindo as decisões da Assembleia. Os senhores, com o Santo Padre, conduzidos pelo Espírito Santo, detêm todos os poderes”. 

Somente esse gesto – de perceber os planos de Felice e buscar convencer os Bispos franceses e vários Cardeais a não aceitarem as Comissões preparatórias organizadas pela Cúria – já seria suficiente para destacar a importância de Dom Helder e Dom Larraín entre os Padres Conciliares. No dizer de Marina Bandeira, “a iniciativa de D. Hélder na abertura do Concílio, ao catalisar o mal-estar reinante, e assumir a responsabilidade de assegurar a liberdade de voto para a eleição dos integrantes das Comissões de trabalho, significou, na prática, o exercício da colegialidade episcopal, princípio que veio a ser oficialmente reconhecido nos documentos do Vaticano II”.

Pe. Ivanir Antonio Rampon

Teólogo

Algumas fontes

Bandeira, Marina. “D. Hélder Câmara e o Vaticano II”. Petrópolis: Vozes LXXXXII, p. 973-976, 1978.

Camara, Dom Helder. Circulares Conciliares, I – de 13/14 de outubro de 1962 a março de 1964, II – de 12 de setembro a 22/23 de novembro de 1964, III – de 10/11 de setembro a 7/8 de dezembro de 1965, Obras Completas de Dom Helder, Recife: Cepe, 2009.

Camara, Dom Helder. Le conversioni di un vescovo. Torino: Società Editrice Internazionale. Prefazione di José de Broucker, p. 174. [Original Lés conversions d’évêque: Editions Seuil, 1977].

Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 196-200, 2013.

Rampon, Ivanir Antonio. Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 57-63, 2014.


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