Causos do Dom: Secretário Geral da CNBB, Dom Helder Camara: o MEB desenvolve a consciência dos pobres
Colaboração: Pe. Ivanir ANntonio Rampon
O MEB – Movimento de Alfabetização de Base – originou-se de uma iniciativa de Dom Eugênio Sales, Bispo de Natal. Dom José Távora, vendo a experiência positiva, propôs à CNBB a criação de um novo organismo que se preocupasse com a educação de base. No dia 11 de novembro de 1961, Dom José e Dom Helder foram a Brasília falar com o novo Presidente Jânio Quadros e conseguiram o apoio oficial do Ministério da Educação ao MEB. O primeiro diretor do Movimento foi Dom Távora, tendo como colaboradores Dom Eugênio e Dom Helder, entre outros.
O MEB partia da alfabetização por meio de programas de rádio e buscava abrir os olhos do povo para os Direitos Humanos, os abusos perpetrados às pessoas e indicava os meios para se obter a justiça. Seus adeptos sabiam que a sua missão não era somente alfabetizar os trabalhadores, mas oferecer uma educação integral que desenvolvesse a consciência política, social e religiosa dos participantes, valorizando o saber dos adultos – o código oral e a cultura popular.
O método do MEB ajudava os participantes a interpretarem a sua condição de vida como resultado de injustiças existentes na estrutura da sociedade brasileira. Em 1963, o Movimento abraçava 12 Estados do Brasil: 7.500 professores conscientizando 180 mil estudantes em 7.353 aulas. Essa postura conscientizadora foi vista como perigosa por latifundiários, coronéis e conservadores. Por isso, logo espalharam a ideia de que o MEB suscitava e fomentava o espírito revolucionário nas massas. O slogan Viver é lutar foi taxado de comunista e, segundo os opositores, na cartilha do MEB até o Pai Eterno fazia propaganda comunista.
Certamente, o objetivo de tais acusações conservadoras era ferir as pessoas e os projetos mais arrojados que visavam o respeito aos Direitos Humanos e a reforma agrária. O MEB era acusado de promover a subversão. No dizer de Ferrarini “(…) Aliás, era mesmo o seu objetivo subverter aquela ordem secular de subserviência, fatalismo e marginalização social”.
Em fevereiro de 1964, a polícia prendeu na tipografia, por ordem do Governador Carlos Lacerda, três mil cartilhas alegando que ensinavam a subversão. O Presidente do MEB, Dom José Távora, o vice, Pe. Hilário Pandolfo e a secretária, Marina Bandeira, foram tratados como criminosos. No entanto, outras 47 mil cartilhas já haviam partido para as respectivas destinações.
O gesto provocou uma tempestade de opiniões: alguns acusaram a polícia e Lacerda de “intolerância e arbítrio” e outros aplaudiram o Governador que desmascarava a “armadilha psicológica” dos Bispos. O Globo e a Tribuna da Imprensa acusaram o MEB de “comunismo”. A maioria da imprensa, no entanto, apoiou Dom Távora. Lacerda, no entanto, disse com orgulho, que contava com a aprovação do Cardeal Câmara.
Alguns dias depois, os militares golpistas atacaram duramente o MEB, terminando, praticamente, com o esforço alfabetizador mais profícuo lançado pelo clero brasileiro. Calcula-se que mais de 400 mil pessoas aprenderam a ler e escrever via MEB. Estas poderiam ser eleitoras, uma vez que analfabetos não votavam.
Essa iniciativa da CNBB fortaleceu a nova visão acerca da ação dos cristãos na sociedade brasileira. Os leigos levantaram novas questões teórico-teológicas que serão aprofundadas nos anos seguintes pela teologia latino-americana.
O Secretário Geral da CNBB, Dom Helder Camara, era favorável ao MEB porque acreditava na necessidade de conscientizar os pobres, abrindo-lhes os olhos sobre a sua dignidade e direitos:
“O MEB colocava as pessoas em pé, abria os olhos, desenvolvia a consciência. Seria triste que, devido aos nossos pecados por omissão, as criaturas humanas tivessem a impressão de que foram abandonadas pela Igreja, porque esta estava ligada aos poderosos e era cúmplice dos ricos que cobrem as suas injustiças tremendas com as ofertas generosas para o culto e as obras sociais cristãs”.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Algumas fontes
Camara, Helder. Terzo Mondo defraudato, Milano, Editora Missionária Italiana, p. 17-18, 1968, 19704.
Cayuela, José. Hélder Câmara – Brasil: ¿un Vietnam católico? Santiago de Chile – Buenos Aires – México – Madrid – Barcelona: Pomaire, p. 146-147, 1969.
Condini, Martinho. Dom Helder Camara: um modelo de esperança, São Paulo: Paulus, p.128-132, 2008.
de Broucker, José. Helder Camara. La violenza di un pacifico. Roma: Edizioni Saggi ed esperienze, Tipografia Città Nuova, p. 226, 1970.
Ferrarini, Sebastião Antonio. A imprensa e o arcebispo Vermelho: 1964-1984, São Paulo: Paulinas, p. 226, 1992.
Piletti, Nelson e Praxedes, Walter. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Editora Contexto, p. 171-172, 2008.
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 126-129, 2013.


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