Causos do Dom: Meditação espiritual de Dom Helder se torna fonte de renovação espiritual
Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon
Dom Helder sempre foi atento à sua espiritualidade. Lia, meditava e praticava a Palavra de Deus. Amava Jesus Cristo com quem buscava viver uma profunda unidade. Rezava muito. Era um místico. Lia autores espirituais. Buscava desenvolver sua espiritualidade, compreendendo que, para isto, era preciso ampliar a visão, alargar o coração e vencer o egoísmo.
Nesta perspectiva, na década de 50 e início dos anos 60, Dom Helder meditava em seu coração a experiência realizada junto aos pobres, aos favelados. Questionando-se sobre o passado e o presente da Igreja no Brasil e na América Latina, foi tomando consciência de que a Igreja quase sempre havia colaborado para manter a “ordem” que era, na verdade, a opressão dos pobres pelos ricos. Para evitar mudanças profundas, usou e até abusou da prudência, sendo muito mais “freio” do que “acelerador”. A generosidade dos ricos e as ajudas dos Governos para as escolas e obras sociais, quando não para o culto, havia se convertido numa tentação que interferia nos seus juízos e na sua linha de conduta.
Estudando os Documentos Sociais da Igreja, notava que estes eram audazes, mas os católicos não eram capazes de praticá-los. Os “bons” ricos aplaudiam os Documentos, mas não aceitavam que fossem praticados. Aceitavam, sim, que a Igreja pedisse muita paciência aos pobres e caridade aos ricos, mas pouca justiça a ambos.
Dom Helder não estava sozinho nessas reflexões: com outros membros do Episcopado, do Presbiterato e de todo o Povo de Deus foi chegando à conclusão de que era preciso ir além da pregação da caridade e da oferta de alguns pãezinhos. Foi nessa perspectiva que, em 1960, nasceu o Movimento de Alfabetização de Base – MEB, com o objetivo de conscientizar as massas. No Vaticano II, Dom Helder fará parte da comissão que organizou a Gaudium et Spes, documento em que se proclama que as “alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. Em Medellín, ajudará a Igreja na América Latina a fazer uma “revolução copernicana”, ou seja, a fazer a firme e decidida opção pelos empobrecidos!
A meditação espiritual helderiana se tornou fonte de renovação espiritual para muitas pessoas e ajudou a constituir o magistério episcopal e teológico da América Latina, que foi assumido com afinco pelo Papa Francisco e, agora, pelo Papa Leão como podemos ler na Exortação Apostólica Dilexi Te e no Discurso aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Algumas fontes
Camara, Dom Helder. Le conversioni di un vescovo. Torino: Società Editrice Internazionale. Prefazione di José de Broucker, p.102. [Original Lés conversions d’évêque: Editions Seuil, 1977].
Gonzáles, José. Helder Câmara: il grido dei poveri, Roma: Edizione Pauline, p. 84-89, 1970, 19764.
Leão XIV. Discurso do Papa Leão XIV aos participantes no Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Roma: Dicastério para a Comunicação – Libreria Editrice Vaticana, 2025.
Leão XIV. Exortação Apostólica Dilexi Te do Santo Padre Leão XIV – Sobre o Amor para com os pobres. Roma: Dicastério para a Comunicação – Libreria Editrice Vaticana, 2025.
Rampon, Ivanir Antonio. Francisco e Helder – Sintonia Espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 19-27, 2016.
Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 83, 2013.


Deixe uma resposta