Causos do Dom: Dom Helder surpreende o educador Anísio Texeira

Causos do Dom: Dom Helder surpreende o educador Anísio Texeira

Colaboração: Pe. Ivanir Antonio Rampon

O Secretário da CNBB, Dom Helder Camara, era o representante oficial da Igreja Católica no Governo de João Goulart e uma das maiores conquistas da Igreja, naquele período, após momentos tensos, foi a aprovação da Lei de Diretrizes Base da Educação Nacional em 1961, graças às articulações de Dom Helder com os deputados Armando Falcão e Santiago Dantas.

Eles conseguiram garantir os “interesses católicos”, a saber, a equivalência de diplomas entre as escolas públicas e privadas, a educação religiosa como componente do currículo das escolas públicas, o direito de as escolas privadas receberem subvenções públicas e a presença da Igreja Católica no corpo decisório do Ministério da Educação. A partir de então, Dom Helder fez parte do corpo de decisões do Ministério da Educação (1962-1964) sendo, no entanto, Alceu Amoroso Lima o representante mais ativo. O Arcebispo tinha se tornado o representante “ilustre” da Igreja Católica.

Um momento significativo – tanto para Dom Helder quanto para Anísio Teixeira – ocorreu em uma solene reunião do Ministério da Educação, em 1963. Naquele momento, o Secretário da CNBB evidenciou que não estava de acordo com a atitude apologética da ala conservadora do Episcopado, mas preferia a via do diálogo… Seria assinado o Plano Nacional de Educação 1963-1970. A sala estava cheia de senadores, deputados, diretores, funcionários, escritores e jornalistas. O plano fora obra de Anísio Teixeira. Como Anísio era considerado homem de esquerda, havia tido muitas solicitações para que ele fosse afastado da direção do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas. As petições mais fortes vinham da ala conservadora da Igreja Católica.

Durante a cerimônia, Dom Helder pediu a palavra, elogiou o plano, apoiou com calor e franqueza Anísio Teixeira. Este, surpreso, escutou com emoção e seus olhos umedecidos revelaram felicidade.  Ao lado de Anísio, o escritor Josué Montello contemplou a cena e, ao cumprimentar Dom Helder, lhe disse: “Sou testemunha da emoção de Anísio com o seu discurso”. E o Secretário da CNBB lhe sussurrou: “Só eu sei o quanto me pareço com Anísio”.

No livro Le conversioni di un vescovo, ao falar disso, Dom Helder confessou que também na área da educação passou de uma visão míope para outra mais larga e profunda. Gradativamente, com outros padres, questionava-se: a maioria das escolas de ensino superior era privada, e destas a maioria católica: o que a Igreja havia feito com os filhos dos ricos que frequentavam as universidades católicas? Que educação foi dada? Foram colocados em contato com os grandes problemas sociais, os grandes problemas de justiça? É verdade que as universidades católicas eram bravas em transmitir o humanismo greco-latino; mas aquele era o verdadeiro humanismo? Seguidamente esquecia-se de que “para formar humanos, desenvolver o espírito humano, é preciso ampliar a visão, alargar o coração, vencer o egoísmo. Mas a imersão nas favelas, o encontro com a dura miséria, o estudo dos problemas sociais do povo da América Latina nos fez descobrir as exigências de uma verdadeira educação”.

Anísio Spíndola Teixeira (1900-1971) foi um personagem central da educação no Brasil. Foi defensor do ensino público gratuito e da educação integral. Nos anos 50 dirigiu o Instituto de Estudos Pedagógicos que, no Governo de Fernando Henrique Cardoso, passou a se chamar Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Através da Lei Federal nº 15.000 de 15 de outubro de 2024, foi declarado Patrono da Escola Pública Brasileira. A Lei, sancionada pelo Presidente Luís Inácio Lula da Silva, visa homenagear o legado de Anísio Teixeira e seu papel fundamental no desenvolvimento de uma educação pública, gratuita, inclusiva e plural no Brasil.

Pe. Ivanir Antonio Rampon

Algumas fontes

______. Lei declara Anísio Teixeira o Patrono da Escola Pública Brasileira. Agência Senado, 16.10.2024.

Camara, Dom Helder. Le conversioni di un vescovo. Torino: Società Editrice Internazionale. Prefazione di José de Broucker, p. 101-102. [Original Lés conversions d’évêque: Editions Seuil, 1977].

de Castro, Marcos. Dom Helder: misticismo e santidade, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 107-108, 2002.

Piletti, Nelson e Praxedes, Walter. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Editora Contexto, p. 267-270, 2008.

Rampon, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 82-83, 2013.


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