Causos do Dom: Dom Fulton Sheen visita a Cruzada de São Sebastião: uma honra ser aliado de Dom Helder
Colaboração de Ivanir Antonio Rampon,
A notoriedade de Dom Helder cresceu muito na segunda metade da década de 50 devido o trabalho que vinha exercendo como Arcebispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro e como Secretário da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O Projeto da Cruzada de São Sebastião recebia visita de autoridades eclesiásticas e civis de todo o mundo. Contou, por exemplo, com a visita do Arcebispo de Milão João Batista Montini – futuro Papa Paulo VI – e do Bispo Auxiliar do Nova Iorque, Fulton John Sheen que também estava no auge de sua popularidade de Bispo, escritor e educador. Na ocasião, Dom Helder resolveu imitar o Cardeal Gerlier mas não teve a mesma sorte. Disse o Arcebispo brasileiro:
“O senhor me permite uma pergunta? Depois destes três dias juntos, sinto que estamos mais próximos um do outro, que compartilhamos a mesma visão de mundo e de Igreja. Por que o senhor não aproveita seu imenso prestígio e utiliza esse instrumento milagroso que é a televisão para combater, por exemplo, o racismo? Por que não se serve dessa força que tem nas mãos para denunciar, por exemplo, as injustiças da política internacional de comércio?”
A reação do Cardeal nem de longe se assemelhou à resposta de Dom Helder a Gerlier:
“Meu irmão, agradeço-lhe a confiança, a coragem com que me fez essa pergunta. O senhor poderia ter guardado no íntimo esta dúvida. Vou responder-lhe com muita sinceridade. O senhor sabe que nós Bispos dos Estados Unidos damos juntos a cada ano um milhão de dólares para a América Latina. […] Graças à televisão também posso enviar todos os anos ao Santo Padre uns 80 milhões de dólares para a Propaganda Fide. Esse dinheiro permite ao Papa ajudar escolas, leprosários e hospitais no mundo inteiro. Asseguro-lhe que se amanhã, na televisão, eu passar a combater o racismo ou as injustiças da política internacional de comércio, imediatamente o dinheiro deixará de chegar a mim. Por isso se trata de uma opção pessoal. Prefiro que me julguem mal, como um ingênuo ou alguém que não tem convicções. Aceito tudo isso conscientemente. Alguém tem de se sacrificar para realizar os trabalhos assistencialistas, enquanto outros trabalham pela mudança das estruturas. Estou feliz de que meu irmão Dom Hélder diga as verdades que não tenho a possibilidade de dizer. Assim, de algum modo, nos completamos.
Diante da resposta inusitada, Dom Helder tentou consertar:
“O senhor aceita… Isso é pobreza, aceitar ser julgado como um ingênuo, como alguém que se aburguesa, cego diante das injustiças… E o faz por uma opção deliberada…”
Dom Helder, então, beijou, a mão do visitante.
Fulton permanecerá um dos grandes admiradores de Dom Helder, e ambos tiveram muitos encontros marcados “pelo carinho fraterno”, mas também por dificuldades devido as diferentes visões da “conjuntura social do Mundo”.
Durante o Concílio, Fulton apresentava Dom Helder como “o maior amigo que os pobres têm no mundo inteiro…” e, isto deixava o Dom um tanto constrangido.
Para Dom Fulton era uma honra ser um aliado precioso de Dom Helder e, por isso, quando o recebeu em Nova Iorque, apresentava-o como “maior amigo que os pobres têm no mundo inteiro; que ninguém a ele lembra mais vivamente São Francisco e o Papa João (…)”.
Os dois foram declarados Servos de Deus. O Papa Francisco declarou Dom Fulton “Venerável”. Sua beatificação estava marcada para 21 de dezembro de 2019, no entanto, foi adiada, a pedido de Dom Salvatore Matano, Bispo de Rochester, tendo em vista uma possível dúvida de como ele procedeu diante de uma acusação de má conduta sexual cometida por um padre em 1963. O site da Congregação para a Causa dos Santos informa que sua causa está em andamento.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Algumas fontes
Dom Helder Camara. Le conversioni di un vescovo. Torino: Società Editrice Internazionale. Prefazione di José de Broucker, p. 147-148. [Original Lés conversions d’évêque: Editions Seuil, 1977].
Dom Helder Camara. Circulares Conciliares, II – de 12 de setembro a 22/23 de novembro de 1964, Obras Completas de Dom Helder, Recife: Cepe, 2009.
Dom Helder Camara. Circulares Interconciliares, II – de 23/24 de novembro de 1964 a 17/18 de abril de 1965, Obras Completas de Dom Helder, Recife: Cepe, 2009.
Ivanir Antonio Rampon, O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p.75, 2013.
Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Editora Contexto, p. 248-249, 2008.

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