Causos do Dom: Dom Helder e Cruzada de São Sebastião recebem críticas
Colaboração do Pe. Ivanir Antonio Rampon
Desde o primeiro momento, Carlos Lacerda foi um crítico da Cruzada de São Sebastião. Ainda no exílio, escreveu uma carta a Dom Helder, publicada no Tribuna da Imprensa, de 26 de março de 1956. Lacerda dizia que não haveria resolução dos problemas das favelas até que não fosse realizada a reforma agrária no país, chamando, assim, a atenção para a causa principal do crescimento desordenado das cidades, ou seja, o êxodo rural provocado pela concentração da propriedade fundiária. No raciocínio de Lacerda, Dom Helder, com a Cruzada de São Sebastião, apoiava o Presidente Juscelino Kubitschek que não tinha interesse em fazer a reforma agrária e, dessa forma, o Brasil vivia na ilusão, pensando que resolveria seus problemas com projetos como a Cruzada.
Dom Helder respondeu, em carta aberta, dizendo que, para impedir o êxodo rural que levava ao crescimento das favelas, era preciso enfrentar o problema dos latifúndios promovendo acesso à terra, assistência técnico-financeira, estocagem dos produtos e transportes. A visão de Dom Helder estava, portanto, de acordo com a postura da CNBB, ou seja, era preciso a reforma agrária!
Mas Lacerda não se convenceu da sinceridade de Dom Helder e, então, começou a acusá-lo de usar a questão social com o objetivo maquiavélico de se promover politicamente e subir na hierarquia da Igreja; desse modo, para o Arcebispo Auxiliar seria proveitoso cultivar a miséria. Ao assumir o Governo do Estado em 1961, Lacerda fez de tudo para boicotar os projetos da Cruzada de São Sebastião. A burguesia do Leblon se uniu ao Governador para transferir as favelas para bem longe de suas casas.
Segundo Dom Helder, o então Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, escolheu um método diferente daquele da Cruzada: mandou construir casas aos favelados em lugares distantes, em terrenos de pouco valor e não urbanizados, longe dos ricos. Desse modo, aquela gente não “incomodaria” a burguesia, e seus terrenos ficavam mais valorizados, pois a vizinhança de ex-favelados fazia cair o preço dos apartamentos elitizados.
Segundo Dom Helder, Carlos Lacerda havia feito uma análise justa sobre a origem do processo de favelização – a falta de reforma agrária, o surgimento da agricultura mecanizada, a expulsão dos posseiros do campo, a falta de legalização das terras, a busca de vida melhor nas cidades –, mas não poderia ter se esquecido de oferecer vida digna aos que já estavam nas favelas.
Dom Helder recebeu ameaças por telefone e cartas anônimas nas quais era chamado de “Bispo das favelas” e expressões grosseiras. Uma noite, já estava dormindo quando telefonaram dizendo que os prédios da Cruzada, no Leblon, estavam pegando fogo. Ele foi até lá de taxi, e nada havia acontecido.
Mas para Dom Helder, o mais duro não eram as críticas do ex-amigo Lacerda e dos ricos, mas as críticas de alguns colegas sacerdotes que, de certo modo, sentiam inveja porque ele era apreciado na imprensa e visitado por autoridades eclesiásticas de todo o mundo. O clero conformista da região considerava Dom Helder um intruso, aventureiro, fracassado, perigoso, politiqueiro e oportunista que driblou a todos até chegar a ser Arcebispo.
No entanto, o pensamento e a ação de Dom Helder recebiam apoio e adesão do clero comprometido com a Causa dos Pobres. Posteriormente, inclusive, servirão de inspiração para o nascimento da Comissão Pastoral da Terra e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Dom Helder, por sua vez, investirá o valor recebido com o Prêmio Popular da Paz e outras importâncias em Reforma Agrária.
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Algumas fontes
De Rosb, Betap. Hélder Câmara, signo de contradicção. Salamanca: Ediciones Sigueme, 1974.
Dom Helder Camara. Dados sobre a Cruzada de São Sebastião. Revista Eclesiástica Brasileira. Petrópolis: Vozes, nº 19, p. 638, 1959.
Dom Helder Camara. Le conversioni di un vescovo. Torino: Società Editrice Internazionale. Prefazione di José de Broucker, p. 165-166. [Original Lés conversions d’évêque: Editions Seuil, 1977].
Ivanir Antonio Rampon, O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 73-74, 2013.
Ivanir Antonio Rampon, Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 44, 2014.
Ivanir Antonio Rampon. Francisco e Helder – Sintonia Espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 124, 2016.
Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Editora Contexto, p. 245-247, 2008.

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