Causos do Dom: Dom Helder: O Bispo das Favelas
No início do Concílio Vaticano II, Padres Conciliares, jornalistas, líderes eclesiais, historiadores, pedagogos… conheciam Dom Helder com o epiteto de “O Bispo das Favelas”. Aproximavam-se do Bispo das Favelas e queriam saber dos projetos Cruzada de São Sebastião, Banco da Providência, Feira da Providência, Movimento de Alfabetização de Base, Ação Católica Brasileira…
Dom Helder tinha muito a narrar do que viu, sentiu, fez e escreveu. Em um artigo intitulado “Dados sobre a Cruzada São Sebastião”, publicado na Revista Eclesiástica Brasileira, havia escrito que em 1959, a Cruzada de São Sebastião estava construindo 672 lojas, 216 armazéns, 216 escritórios, 192 lojas (para Bancos, repartições públicas, restaurantes etc.), 140 salas (para médicos, dentistas, veterinários, agrônomos, advogados, despachantes etc.). Além disso, estava projetando o Palácio da Bolsa de Gêneros Alimentícios (8 a 10 andares), serviço de assistência aos veículos, frigorífico e outros blocos residenciais.
Para o melhoramento das favelas, em 1959 foi projetado: redes de iluminação elétrica em 14 favelas; instalação de água em 10; auxílio à construção de escolas em 3; auxílio à construção de capelas, escadas, esgotos, caminhos, depósito de lixo. A Cruzada mantinha serviço médico e dentário em algumas favelas e sustentava desempregados.
Na década de 50 e 60, Dom Helder era considerado um brilhante reformador social e um futuro Santo canonizado. Apesar de ter aliviado a situação difícil de milhares de famílias, em 1963 o déficit de habitações no Rio de Janeiro havia dobrado em relação a 1955, pois, nesse período, chegaram levas de nordestinos; o sonho de extirpar as favelas foi ficando cada vez mais difícil. O próprio Dom Helder comentou que cada família transferida para um apartamento era substituída por várias outras que, na esperança, aguardavam a sua vez.
A Cruzada precisou mudar de objetivo, centrando seu trabalho na humanização e cristianização das favelas, uma vez que não se previa o fim delas. Foi então que inovou, auxiliando os favelados a conseguirem escolas para a alfabetização de crianças e adultos, depósito de água nos morros, rede de iluminação elétrica, postos de saúde, alguns lugares de trabalho, creches, igrejas, capelas, centros catequéticos.
No dizer de Dom Helder, a “construção material é ponto de partida, pois é impossível verdadeira formação humana dentro da favela, onde falta o mínimo de conforto material capaz de servir de base para a organização familiar”. A Cruzada mantinha projetos de formação de líderes entre os próprios favelados.
A ação de Dom Helder nas favelas o colocou em uma estrada que nunca mais abandonou: a via do empenho para conseguir a justiça social no seu país, na América Latina e no Terceiro Mundo. No Vaticano II, Dom Helder será conhecido como o Bispo das favelas!
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Algumas fontes
Gladys Weigner e Bernhard Moosbrugger. Helder Câmara: la voce del mondo senza voce, Milano: Centro Missionario PIME, p. 23 e 44, 1973.
Ivanir Antonio Rampon, O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 72-73, 2013.
Ivanir Antonio Rampon, Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 43-44, 2014.
Ivanir Antonio Rampon. Francisco e Helder – Sintonia Espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 119, 2016.
Martinho Condini. Dom Helder Camara: um modelo de esperança, São Paulo: Paulus, p.25-27, 2008.
Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Editora Contexto, p. 241-243, 2008.
Roger Bourgeon. Il profeta del Terzo Mondo (L’arcivescovo delle favelas). Milano: Editrice Massimo, Collana Testimoni del nostro tempo 1, p. 242-243, 1970.

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