Causos do Dom: O “momento de virada” na vida de Dom Helder: a consagração aos pobres
Após o sucesso e a grande fortuna conseguida para o 36º Congresso Eucarístico Internacional, alguns políticos e jornalistas comentaram que a Igreja tinha grande força e, no entanto, não se empenhava o necessário para colaborar na resolução dos problemas sociais. Para aumentar a inquietude de Dom Helder, uma opinião semelhante tinha o alto dignitário, o Cardeal Gerlier, de Lion, França.
Gerlier, que acompanhara os trabalhos do Arcebispo Auxiliar na organização do Congresso Eucarístico, concluiu que não era razoável que a capacidade desse Bispo brasileiro ficasse presa à organização de megaeventos religiosos. Por isso, antes de retornar à França, quis um colóquio com ele, a fim de elogiá-lo, mas muito mais para lhe lançar um apelo:
Permita-me falar-lhe como um irmão, um irmão no batismo, um irmão no sacerdócio, um irmão no episcopado, um irmão em Cristo. Você não acha que é irritante todo este fausto religioso em uma cidade rodeada de favelas? Eu tenho certa prática em organização e por ter participado desse Congresso devo dizer-lhe que você tem um talento excepcional de organizador. Quero que faça uma reflexão: por que, querido irmão dom Hélder, não coloca todo este seu talento de organizador que o Senhor lhe deu a serviço dos pobres? Você deve saber que o Rio de Janeiro é uma das cidades mais belas do mundo, mas também uma das mais espantosas, porque todas essas favelas, neste quadro de beleza, são um insulto ao Criador…
O Cardeal sensibilizou Dom Helder que interpretou aquelas palavras como um novo desafio. Pegando e beijando as mãos do Cardeal, disse-lhe: “Este é um momento de virada em minha vida. O senhor poderá ver minha consagração aos pobres. Não estou convencido de possuir dotes excepcionais de organizador, mas todo o dom que o Senhor me confiou colocarei ao serviço dos pobres”.
A partir daquele dia, as visitas às favelas começaram a ser frequentes e estas se converteram em sua preferência pastoral. Quando Bispos e Cardeais o visitavam, ele os recebia com grande cordialidade e os levava para um passeio. O principal lugar a conhecer não era mais a Catedral de São Sebastião ou o Corcovado – de onde se contempla uma das paisagens mais belas do mundo –, mas as favelas de Pinto, Jacarezinho, Cantagalo, Cabritos, Saudade, Babilônia, Prazeres, Céu, Cachorrinha… Portanto, aquele que antes frequentava a casa dos ricos agora começava a frequentar o ambiente dos pobres. As duas experiências se confrontarão no seu coração. Dessa tensão virá novidade!
Pe. Ivanir Antonio Rampon
Algumas fontes
Benedicto Tapia de Renedo. Hélder Câmara: proclamas a la juventud. Salamanca: Ediciones Sigueme, p. 16, 1976.
Dom Helder Camara. Le conversioni di un vescovo. Torino: Società Editrice Internazionale. Prefazione di José de Broucker, p. 161-163. [Original Lés conversions d’évêque: Editions Seuil, 1977].
Gladys Weigner e Bernhard Moosbrugger. Helder Câmara: la voce del mondo senza voce, Milano: Centro Missionario PIME, p. 43, 1973.
Ivanir Antonio Rampon, O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 67-68, 2013.
Ivanir Antonio Rampon, Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 45-47, 2014.
José Cayuela. Hélder Câmara – Brasil: ¿un Vietnam católico? Santiago de Chile – Buenos Aires – México – Madrid – Barcelona: Pomaire, p. 162-163, 1969.
José de Broucker. Helder Camara. La violenza di un pacifico. Roma: Edizioni Saggi ed esperienze, Tipografia Città Nuova, p. 25, 1970.
José Gonzáles, Helder Câmara: il grido dei poveri, Roma: Edizione Pauline, p. 80-85, 1970, 19764.
Marcos de Castro, Dom Helder: misticismo e santidade, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 94-99, 2002.

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