Causos do Dom: Dom Helder visita Dom Montini que estava sofrendo pesada carga da parte dos integralistas
Em 1955, em nome da CNBB, Dom Helder foi convidar Dom Montini, então Arcebispo de Milão, para pregar um retiro espiritual aos Bispos brasileiros. Montini acolheu o amigo com muito carinho e o levou a visitar os túmulos de Santo Ambrósio e São Carlos Borromeu.
Antes de almoçarem no Palácio Episcopal, Helder passou por uma grande sala na qual se impressionou com uma galeria que continha centenas de quadros com retratos dos antecessores no pastoreio daquela Igreja, desde os primeiros tempos do cristianismo. O Arcebispo de Milão fez, então, um comentário enigmático: “Meus antecessores, na sede episcopal de Milão, todos, sem exceção, foram martirizados. Ser Bispo de Milão era sinônimo de martírio”.
Montini lhe confidenciou que o fardo não estava sendo leve. Sofria pesada carga da parte dos integralistas locais que o chamavam de “arcebispo vermelho” ou “arcebispo comunista”. O jornalista Marcos de Castro relata que, segundo Dom Helder, Montini
lembrou que isso tinha começado no dia em que fora visitar uma fábrica naquele grande centro industrial do norte da Itália. Como faria a visita em companhia dos diretores da fábrica, foi avisado de que seria mal-recebido pelos operários. Realmente, num dos pátios da indústria em que era maior o número de trabalhadores, notou grande hostilidade por parte de quase todos, que não desgrudavam os olhos dele, com cara de poucos amigos. O fato de estar ciente de antemão de que haveria hostilidade levou-o a enfrentar a situação rapidamente. Afastou-se inopinadamente dos diretores da fábrica que o acompanhavam e se dirigiu aos operários, erguendo os dois braços e dizendo: ‘Só tenho compromisso com o Evangelho!’. Com essas palavras iniciou um breve mas inflamado discurso, dizendo aos operários, aberta e largamente, tudo o que achava que devia ser dito naquele momento. Falou – segundo comentário feito a Dom Helder – ‘como cabe a um bispo, a um apóstolo da Igreja de Cristo falar! Tanto bastou para se transformar, em Milão, num ‘arcebispo vermelho’.
Depois do almoço, foram rezar na capela. Em seguida, Dom Helder elencou os motivos pelos quais o convidava para pregar um retiro espiritual aos Bispos do Brasil. Sem dúvida, a presença de Dom Helder convenceria mais do que uma carta, mas, mesmo assim, Montini não aceitou dizendo que seria uma insigne e profunda alegria atender o convite, mas que havia aprendido, ao longo da vida, que há momentos para aparecer e horas de mergulhar, e que estava em cheio no mergulho… Dom Helder entendeu a negativa e respeitou a decisão do amigo.
Ivanir Antonio Rampon, O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, p. 67-68, 2013.
Ivanir Antonio Rampon, Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual. São Paulo: Paulinas, p. 45-47, 2014.

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