CARTA AOS JOVENS

Recife, 29 de junho de 1967

Carta aos Jovens

Jovens, meus Amigos*
 
 
    
  Graças a Deus, em todos os lugares e em todos os tempos, os jovens imaginaram, imaginam e imaginarão que são diferentes e que deles vai depender a construção do mundo…Mas sabem, que eu estou convicto de que a juventude de vocês coincide maravilhosamente com uma tríplice juventude: do Brasil, do Cristianismo e do Mundo!?…
 
Deve ser horrível chegar tarde demais a um Mundo todo feito. Mas isto só acontece com quem carrega a tristeza de não ter olhos de ver e imaginação criadora.
 
É apaixonante viver no Brasil na hora em que nos cabe despertar e dominar a Amazônia (e não seremos dignos dela se não a conquistarmos para o Brasil e para o Mundo, para os homens e para Deus). É apaixonante ter o Centro-Oeste e o Nordeste a desenvolver, é apaixonante ter que completar o 7 de setembro e o 13 de maio, ter que empreender a integração nacional e encontrar soluções sob medida para o nosso País.
 
Vocês são tão felizes que não basta atingir dimensões nacionais: é urgente partir para a integração continental. É impossível diálogo entre o extremamente forte e o extremamente fraco.
 
Pelo amor da solidariedade universal, para que tenhamos condições de dialogar com o Mundo, impõe-se que: percamos a ilusão das alianças que acabam sendo ajuda de subdesenvolvido às superpotências; tenhamos o realismo e a humildade de dentro do continente mutuamente nos complementarmos (…); vivamos o risco esplêndido de prescindir de qualquer tutela estrangeira; evitemos repetir sobre nossos vizinhos menores, hegemonias e imperialismos que aprendemos a sempre mais repetir…
 
Continente é pouco para vocês: pensem, sempre, em termos de Terceiro Mundo. Quando começaremos a pagar nossa dívida para com a África? (Durante 3 séculos as Américas escravizaram milhões de Africanos!). Quando entenderemos, na prática, que é obrigação de todos ser irmãos da Ásia, dado que é lá que será perdida ou ganha em definitivo a batalha do desenvolvimento?!…
 
O tempo corre contra nós. Mas é preciso, em termos de História acelerada, que a geração de vocês leve o terceiro Mundo a sentar, não como mendigo, mas como Par e Irmão, à Távola enfim Redonda, em que o Mundo se decida a dialogar.
 
Terra é pouco para vocês. É limitado falar em dimensões planetárias. Vocês desembarcarão nas estrelas. Viverão a liquidação da corrida armamentista e o fim das guerras (não por motivos idealistas, mas realistas: elas se tornaram totalmente absurdas e impraticáveis. Humanizarão a era eletrônica e cibernética. Escaparão dos robots. Atingirão a socialização a serviço do homem e da comunidade, sonhada por João XXIII.
 
Tudo vai depender de vocês não perderem a cabeça e não cometerem a loucura de prescindir de Deus. Bastam-nos o risco imenso e a glória incomparável de sermos sócios de Deus, co-Criadores. Quanto à nossa vocação de deuses, ela não é pretensão absurda, nem sonho vazio. Nascemos para ser deuses.
 
Encontrem-se com o Cristo. Não o Cristo deformado, caricaturado, irreconhecível. Mas, com o verdadeiro Cristo. Ele sabe que o Criador e Pai confiou ao Homem a responsabilidade de conduzir a evolução a partir do instante privilegiado em que surgiu vida humana. Durante séculos o Homem se sentiu criança. Agora começa a acreditar no direito e no dever de domar a Natureza e completar a Criação. Começa a assumir a direção da história.
 
Mas a sombra do pecado introduz o medo, a fraqueza e a morte na terra dos homens. Cristo veio para viver, por antecipação, a plenitude que o homem atingirá, ajudado pela graça. Veio, porque é mais que humano, humanizar os sub-homens criados pela miséria e os super-homens desumanizados pelo excesso de conforto. Veio para que o homem não tonteie na hora em que as verdadeiras descobertas, em breve, lhe deem a dimensão de co-Criadores.
 
Vocês já viveram intensamente com a própria juventude, a juventude do Cristianismo, do Brasil e do Mundo, quando deram dimensões planetárias à mensagem tão brasileira, tão humana e tão cristã de      “Morte e Vida Severina”. Juventude não é ausência de ruga e de cabelo branco. Velhice não é avanço em anos. É moço quem tem uma causa a que dedicar a vida.
 
Perdoem qualquer tom de conselho. Não tenho receitas para vocês. Queria só dizer que vocês podem contar com meu amor, compreensão e torcida fraterna. Jogo em vocês.
 
Dom Helder Camara

* Essa carta foi lida por quatro adolescentes de 14 a 16 anos da Casa de Frei Francisco, Cauã, Pollyana, Alexandra e Maria Clara, na celebração da memória de Dom Helder Camara, na igreja das Fronteiras, no sábado 25 de agosto de 2018.
 
 
 

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